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6 - Diferentes Visões Epistemológicas
Racionalismo e Empirismo

De onde vem o Conhecimento?

Conforme prometemos na aula Epistemologia e seus Conceitos Básicos, discutiremos, aqui, como

pensador e objeto
  • os racionalistas dão maior importância ao sujeito, enquanto
  • os empiristas dão maior importância ao objeto,
relembrando a discussão sobre O que é Realidade? da aula Realidade e Ciência.
Realidade e Causas
Mas, note-se que, segundo o método hipotético-dedutivo, a experiência, apenas, não é suficiente!

Como já vimos, o método empírico contrapõe

  • o experimento à mera observação
  • a busca do conhecimento à descoberta por acaso

O método hipotético-dedutivo compõe-se de quatro fases:

  1. observação,
  2. hipótese,
  3. experimentação e
  4. verificação

Algoritmo do Método hipotético-dedutivo

  1. recolher observações
  2. formular modelos e hipóteses que organizem as observações
  3. deduzir predição a partir de 2
  4. testar a predição: para tentar desprovar 2
  • se funcionar, 2 é corroborada (não provada!)
  • se não, 2 é falsificada; voltar a 2.

Copérnico

CopérnicoCopérnico (1473-1543) superou a mera acumulação de dados astronômicos e ajustes no modelo Ptolomaico.

Propos um novo modelo, heliocêntrico, uma explicação mais plausível para as observações.

Como diz Roque (2012),

"O traço inovador da teoria de Copérnico então reconhecido era a defesa da autonomia dos modelos matemáticos para salvar as aparências dos fenômenos.

Na verdade, antes de 1580 quase nenhum astrônomo acreditava que o modelo de Copérnico pudesse representar a estrutura física do cosmos." (ROQUE, 2012, p. 294).

Mas isso foi uma Revolução, pois o Homem deixou sua posição privilegiada no centro do Universo.

Heliocentrismo

Empirismo

O Empirismo afirma que a experiência sensorial é a única fonte do conhecimento, rejeitando 

  • a Introspeção, um autoconhecimento em que o sujeito procura tomar consciência dos conteúdos de seus próprios estados mentais, suas crenças, imagens mentais, memórias, intenções, emoções, conceitos, raciocínios, associações de idéias, etc., e
  • o Escolasticismo, o método de pensamento crítico dominante no ensino teológico e filosófico feito nas escolas eclesiásticas e nos primórdios das universidades europeias durante a Idade Média, entre os séculos IX e XVII, com forte ênfase na dialética e na inferência, surgido da necessidade embasar a fé dos primitivos cristãos com um suporte filosófico, embasado no Platonismo e no Aristotelismo. Tinham as obras clássicas, tais como a Bíblia, as obras de Aristóteles e de Platão como praticamente as únicas fonte de conhecimento (veremos mais sobre a Escolástica na aula As Contribuições de Galileu e Newton).

e colocando-se em oposição ao Racionalismo, de que falaremos em seguida.

Não se deve confundir 'experiência', no sentido técnico, já abordado na aula Realidade e Ciência, com 'experiências de vida', 'experiências anteriores', 'ter experiência' e outras expressões de uso comum (senso comum)!

Roger Bacon (1214-1294)

Roger BaconTambém conhecido como Doctor Mirabilis (Doutor Admirável em latim), foi um frade dominicano e filósofo inglês que contribuiu em áreas importantes como a Mecânica, a Filosofia, a Geografia e principalmente a Óptica.

Roger Bacon teria sido um defensor do Empirismo:

Sem experiência nada se pode saber suficientemente. Há duas maneiras de adquirir o conhecimento: pelo raciocínio [Racionalismo] ou pela experiência [Empirismo]. Raciocinar leva-nos a tirar uma conclusão que temos por certa, mas não elimina a dúvida. E o espírito não repousa na luz da verdade se não a adquirir através da experiência. (GIMPEL apud NARLOCH, 2013, p. 56)

O frei Guilherme de Baskerville, personagem central da obra O Nome da Rosa do escritor italiano Umberto Eco, teria sido inspirado em Roger Bacon, também ele um monge excêntrico e com conhecimento avançado para a época.

Francis Bacon (1561-1621)

Francis BaconBacon, político, filósofo e ensaísta inglês, barão Verulam, visconde de St. Albans, é chamado de 'fundador da ciência moderna' por pregar o método empírico para a busca do conhecimento.

Sua obra mais importante é Novum organum sive Indicia de interpretatione naturae (Novo método ou Manifestações sobre a interpretação da natureza), onde expõe o método indutivo.

No entanto, é importante notar que, no Antigo Egito, a Medicina já tinha seus métodos de diagnóstico, tal como descritos no papiro Edwin Smith (circa 1600 a.C.), como já mencionado na aula História da Epistemologia.

Também Ibn Al-Haitham, já no séc. X, punha ênfase na busca da verdade e no uso de experimentos para decidir entre duas hipóteses.

Francis Bacon - Instauratio MagnaBacon pretendia realizar uma Instauratio magna (uma grande Restauração) no pensamento filosófico e científico por forma a substituir o método Aristotélico e o Escolasticismo, que considerava estéril e sem resultados práticos, ou seja, muito contemplativa e pouco operativa, muito especulativa e pouco tecnológica.

Bacon pregava

  • a experimentação, em vez da argumentação
  • a repetição do experimento, para garantir a validade dos resultados
  • a variação controlada das condições, para discriminar as variáveis intervenientes;
  • a indução, em vez do raciocínio silogístico.
Francis Bacon - New AtlantisBacon escreveu, também, New Atlantis (1626), a 1ª utopia moderna, após a República de Platão, vista na aula História da Epistemologia.

Nela, descreve a Casa de Salomão, uma Universidade ou instituto de pesquisas em que os cidadãos participavam realizando todo tipo de experiências.

Francis Bacon - Casa de Salomão

Diz-se que esta obra inspirou a posterior criação da Royal Society (1660) de Londres (Sociedade Real de Londres para o Progresso do Conhecimento da Natureza). 

Vale lembrar que o lema da Royal Society é Nullius in verba (literalmente, 'nas palavras de ninguém') significando a intenção de estabelecer a verdade no domínio dos fatos, baseando-se somente na experiência científica, e jamais nas palavras de uma autoridade.

Galileu Galilei (1564-1642)

Galileu GalileiGalileu expressava seu empirismo afirmando que "só o livro da natureza é o objeto próprio da ciência e este livro é interpretado e lido apenas pela experiência".

Galileu foi, também, o responsável pela 'geometrização' da Ciência, isto é, pela introdução da Matemática, onde o discurso era apenas filosófico.

Considera-se este momento o da passagem da Filosofia à Ciência.

Ele afirmava que
"só o raciocínio pode estabelecer as relações matemáticas entre os fatos da experiência e construir uma teoria científica dos próprios fatos" e que "as deduções que derivam matematicamente destas hipóteses devem ser confrontadas com a experiência e confirmadas com experimentos repetidos antes de poderem ser declaradas válidas".

No entanto, Galileu teve de enfrentar a Escolástica (veremos mais sobre a Escolástica na aula As Contribuições de Galileu e Newton).

Galileu e os escolásticos

Na pintura acima, está representada claramente a postura do escolástico Cesare Cremonini que simplesmente se recusou a olhar pelo telescópio, alegando que nos livros de Aristóteles não havia qualquer menção a manchas solares e que, portanto, essas manchas não existiam!

Galileu, o pseudoexperimentalista

No entanto, apesar dessa verdadeira pregação do empirismo, várias experiências mencionadas por Galileu foram apenas experiências mentais (KOYRÉ, 1992, p. 99), muitas por falta de recursos tecnológicos para sua execução.

Por exemplo, a famosa experiência da Torre de Pisa não aconteceu (CROMBIE, 1957, p. 298).

Veremos mais sobre Galileu na aula As Contribuições de Galileu e Newton.

Isaac Newton (1643-1727)

Isaac NewtonNewton dizia não criar hipóteses sem base experimental ("Hypotheses non fingo"), isto é, não especulativas, de base filosófica.

Dizia que seu ‘método’ consistia em que "as proposições particulares são inferidas dos fenômenos e, depois, tornadas gerais pela indução", apresentando-se, portanto, empirista-indutivista.

Veremos mais sobre Newton na aula As Contribuições de Galileu e Newton.

Antoine-Laurent de Lavoisier (1743-1794)

Antoine Laurent de LavoisierLavoisier pregava um método analítico para a Química, baseada em experiências verificáveis e reprodutíveis, com instrumentos cada vez mais precisos e padronizados.

Veja mais sobre Lavoisier na aula Lavoisier e a Revolução Química.

Método indutivo

método indutivo
  • vai do particular para o universal
  • apoia-se no conhecimento das coisas que se observam, evidências empíricas,
  • por indução, generaliza das evidências particulares (dados)
  • até obterem-se verdades universais, leis

Por exemplo, num experimento com 100 amostras de metais diversos, observa-se que ao se aquecerem, dilatam. Por indução, declaral-se que todos os metais dilatam quando aquecidos.

Vale a pena rever a discussão sobre observações e leis na aula Epistemologia e seus Conceitos Básicos.

Racionalismo

O Racionalismo, historicamente, deriva de Parmênides (séc. 5 a.C.), Zenão (séc. 5 a.C.) e, como já vimos na aula História da Epistemologia - Parte 3, Platão (séc. 5 a.C.).

Mas seu principal expoente é Descartes (séc. 17)

René Descartes (1596-1650)

René DescartesDescartes, filósofo, físico e matemático francês, foi, também, conhecido também conhecido na forma latina Renatus Cartesius, já que provinha de uma família de fabricantes de mapas (cartas náuticas).

Defendia o princípio de que a dúvida era o primeiro passo para se chegar ao conhecimento.

Foi figura central do Racionalismo e, por isso, denominado o "Pai da Filosofia Moderna"

Foi contemporâneo de Galileu.

Com Descartes, surge a noção de Lei física, sem o cunho teológico, dizendo que a lei é eficaz por si mesma, sem a necessidade de uma entidade ou divindade para sua execução.

Veja mais na biografia de Descartes.

O Racionalismo prega, assim, que o conhecimento deve ser baseado na certeza, por dedução, que começa numa busca do começo racional do conhecimento.

Método dedutivo

método dedutivo
  • vai do geral para o particular
  • apoia-se no conhecimento das coisas que se reconhecem corretas - evidências intuitivas,
    • pela análise (decomposição), divide-se uma questão em suas partes componentes
    • até obterem-se evidências ou verdades já demonstrados
  • por dedução, então, a partir delas, chega-se a novas conclusões

Por exemplo,

Premissa maior Todo ser humano é mortal Geral
Premissa menor Sócrates é um ser  humano Particular
Conclusão Sócrates é mortal Particular

Racionalismo e EmpirismoContinue conhecendo o Racionalismo e o Empirismo.

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