Buffer

1 - Realidade e Ciência

O que é Realidade, afinal?

Veja esta página

vídeo 'O Conto do Sábio Chinês' (Raul Seixas)vídeo O Conto do Sábio Chinês (Raul Seixas)
Nosso Raul Seixas compôs uma música intitulada O Conto do Sábio Chinês, baseada nos ensinamentos do filósofo taoísta chinês Zhuangzi (Chuang-Tzu), do séc. 4 a.C.

Cypher preferiu voltar à Matrix, preferiu o sonho de ser rico e famoso. Para ele esta era uma realidade melhor do que a realidade 'real'.

Matrix Cypher

O Papel do Experimento

Há que distinguir aqui entre experimento e observação.

ObservaçãoObservação é um evento fortuito, geralmente inesperado e fruto do acaso, natural.
A observação de um fenômeno pode levar o observador a um questionamento (uma pergunta de pesquisa), a uma tentativa de explicação (teoria), a uma hipótese, que será testada num experimento.
ExperimentoExperimento é uma construção intencional, com o objetivo de testar uma hipótese, com a exclusão de todos os fatores que não estão contidos na hipótese (tal como aparece nos livros-texto, "desconsidere-se o atrito, resistência do ar, etc.") e, por isso, artificial.
BachelardPor outro lado, para os que ainda consideram o experimento como a prova final da Realidade, Bachelard chamava a atenção para o caráter indireto das experimentações atuais:

"O simples fato do caráter indireto das determinações do real científico já nos coloca num reino epistemológico novo. Por exemplo, enquanto se tratava, num espírito positivista, de determinar os pesos atômicos, a técnica - sem dúvida muito precisa - da balança bastava." (BACHELARD, O Novo Espírito Científico)

balança

Uma balança deste tipo é de operação muito simples e direta: coloca-se o objeto num prato e colocam-se pesos (massas) no outro prato até que o equilíbrio, indicado pelo ponteiro, seja alcançado; basta, então, verificar o total da massa no prato para inferir que será igual à massa do objeto. São dados diretos, que podem servir de fonte para outras operações de transformação: cálculos, gráficos, etc.

Mas a evolução da Ciência depende de e, ao mesmo tempo, propicia avanços tecnológicos nos seus próprios instrumentos.

"Uma medida precisa é sempre uma medida complexa; é, portanto, uma experiência organizada racionalmente." (BACHELARD, O Novo Espírito Científico).

"[…] quando no século XX se separam e pesam os isótopos, é necessária uma técnica indireta. O espectroscópio de massa, indispensável para esta técnica, fundamenta-se na ação dos campos elétricos e magnéticos. É um instrumento que podemos perfeitamente qualificar de indireto se o compararmos à balança." […] (BACHELARD, O Novo Espírito Científico)

Espectrometro de massa

Nele, as partículas são aceleradas e colimadas por um campo elétrico E e um magnético B e emergem num outro campo magnético B' que encurva suas trajetórias pela força de Lorentz com raios R1 e R2 que dependem de suas massas m1 e m2 segundo a equação

Raio de curvatura de uma carga em um campo magnético uniforme

Quanto maior a massa, maior o raio de curvatura da trajetória.

Mas, como Bachelard alerta,

"Na realidade, os dados são aqui resultados. As trajetórias que permitem separar os isótopos no espectroscópio de massa não existem na natureza; é preciso produzi-las tecnicamente. São teoremas reificados [grifo nosso]." (BACHELARD, O Novo Espírito Científico).

Os 'dados' obtidos aqui já são resultados de operações complexas, e, mais grave, resultam de nossa crença na validade de uma série de teorias que embasam e antecedem a operação do aparelho de medida.

A experimentação, que servia para o empirista verificar a teoria, agora baseia-se ela mesma em teorias. A experiência está 'contaminada' por teorias, como já dizia Whewell em 1837, antecipando o atual conceito de theory-ladenness.

Assim, antes de aceitar as observações telescópicas é preciso olhar para as lentes do telescópio, a forma como é construído de modo a garantir que o telescópio está apontando na direção certa, que a luz viaja pelo espaço em uma linha reta (o que Einstein demonstrou que, geralmente, não é verdade, mas é muitas vezes uma aproximação adequada), etc..

Bootstrapping É um processo bootstrapping, em que as observações que embasam as teorias, longe de serem dados 'puros' estão, elas mesmas, contaminadas por outras teorias.

Considere uma bela imagem como esta, da famosa nebulosa planetária NGC 2818, que fica na constelação do Compasso, obtida pelo telescópio espacial Hubble em 2008.

Nebulosa NGC 2818 fotografada pelo Hubble em 2008

Tão bonita e tão falsa! Essas belas cores não são reais! São resultado de uma técnica, chamada justamente de falsa cor. A imagem original foi processada em computador, de forma que o vermelho representa emissões de nitrogênio, verde representa hidrogênio e azul, oxigênio!

Apesar disso, apesar desse processamento prévio, apesar de resultar de uma série de teorias que embasam esse processo, ela, tal como tantas outras semelhantes, servirá de 'dados' para astrofísicos que farão inúmeros estudos a partir delas, formularão novas teorias e hipóteses, etc.

Por outro lado, como se sabe, a Teoria da Relatividade Geral, de Einstein, tem, dentre outras consequências, que a matéria (energia) encurva o espaço-tempo à sua volta. Um espaço-tempo vazio de matéria continua sendo bem descrito pela velha a boa geometria euclidiana. Mas um espaço-tempo contendo matéria, como o nosso Universo, só poderá ser descrito por uma geometria em que as 'linhas retas' já não serão mais 'retas', em que a noção de 'paralelas' é diferente e em que a soma dos ângulos internos de um triângulo pode ser maior ou menor que 180°, uma geometria não euclidiana, portanto.

Espaço curvo
GaussO grande Gauss tentou verificar astronomicamente um teorema de geometria não-euclidiana.

"ele perguntava-se se um triângulo assinalado nas estrelas e por conseguinte de uma enorme superfície, manifestaria a diminuição de superfície apontada pela geometria lobatchewskiana [uma das alternativas à geometria euclidiana]." (BACHELARD, O Novo Espírito Científico).

Triângulo de estrelas
PoincaréNo entanto, o também grande Poincaré

"[…] não admitia o caráter crucial de uma tal experiência. Se ela resultasse, dizia ele, decidir-se-ia desde logo que o raio luminoso sofre uma ação física perturbadora e que já não se propaga em linha reta. Em todo o caso, salvar-se-ia a geometria euclidiana." (BACHELARD, O Novo Espírito Científico)

"Depois de Poincaré demonstrar a equivalência lógica das várias geometrias, afirmou que a geometria de Euclides continuaria a ser sempre a mais cômoda e que em caso de conflito desta geometria e a experiência física se deveria preferir sempre modificar a teoria física em vez de mudar a geometria elementar." (BACHELARD, O Novo Espírito Científico)

Ou seja, Poincaré preferia alterar a evidência experimental, e consequentemente a teoria, para manter a realidade de uma descrição euclidiana, "mais cômoda" para ele. Isto é, ele não aceitava que a Realidade fosse diferente de sua convicção!

Assim, vimos que, para a Ciência, Realidade é um conceito complexo, construído, sujeito a escolhas. É muito diferente do uso ingênuo que o senso comum lhe atribui em expressões tais como "realidade social", "realidade brasileira", "realidade da vida", etc.


Referências


Coelho branco caindoEntão, vamos um pouco mais fundo na toca do coelho?

Voltar à Parte Anterior


Voltar a Minhas Aulas.


Voltar ao começo desta página

Voltar à página principal de Física Interessante

Link para esta página:
View Renato P. dos Santos's profile on LinkedIn

Research papers by Renato P. dos Santos






CSS válido!