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13 - Complexidade
e Transdisciplinaridade

Começemos pela Complexidade e por um de seus mais ilustres contribuidores.

Ilya Romanovich Prigogine (1917-2003)

Ilya Romanovich PrigoginePrigogine foi um químico russo, naturalizado belga.

Prigogine ganhou o Prêmio Nobel de Química de 1977 por seu trabalho sobre Sistemas dissipativos, Sistemas complexos e Irreversibilidade.

Seu trabalho é visto por muitos como uma ponte entre as Ciências Naturais e as Ciências Sociais. Sua formalização do conceito de auto-organização serviu, também, como uma ponte entre a Teoria Geral de Sistemas e a Termodinâmica.

Em seu livro The End of Certainty (O Fim Das Certezas - Tempo, Caos e as Leis da Natureza) (com Isabelle Stengers), de 1997, Prigogine argumentou que o Determinismo já não era uma crença cientificamente válida.

Sistemas dissipativos

Sistemas dissipativos são sistemas abertos, do ponto de vista termodinâmico, isto é, podem trocar energia e matéria com o meio ambiente em que estão imersos, como explicamos na página Física Termodinâmica - Entropia, e que operam fora, e muitas vezes longe, do equilíbrio termodinâmico.

Na verdade, a maior parte dos sistemas encontrados na Natureza não estão em equilíbrio termodinâmico, pois estão em constante mudança e troca de matéria e energia com outros sistemas vizinhos. Como vimos na página Física Termodinâmica - Entropia, todos os seres vivos são exemplos de sistemas fora do equilíbrio.

Duas das maiores dificuldades com sistemas fora do equilíbrio termodinâmico são que, devido às suas inomogeneidades, fica difícil definir a entropia e a temperatura desses sistemas, que são grandezas termodinâmicas globais, geralmente definidas considerando o corpo como um todo, homogêneo.

Irreversibilidade

Conforme vimos na página Física Termodinâmica - Entropia, Irreversibilidade significa a impossibilidade de um sistema, após ter ido de um estado A para um estado B, retornar ao seu estado inicial A, com seu meio ambiente envoltente também retornado ao seu estado inicial. Geralmente é possível retornar o sistema ao seu estado inicial A, às custas de nova alteração no seu meio ambiente envolvente.

Termodinâmica - Flecha do tempoLá vimos, também, que a irreversibilidade implica numa assimetria temporal do sistema, a existência de uma 'flecha do tempo'.
Bernoulli - Teoria cinética dos gasesUm sistema termodinâmico é, necessariamente, um sistema com um enorme número de partes, até para poder ser tratado estatisticamente.

Todas as leis físicas são reversíveis em escala microscópica, para as partes individuais. Porém, uma mudança de estado em tal sistema, como um todo, significa uma mudança muito complicada no arranjo de todas essas partes, a qual inclui uma certa energia necessária para essa transformação, além de ocorrer alguma dissipação de energia em forma de calor, devido a colisões não perfeitamente elásticas e atrito entre as partes. Essa energia dissipada não pode ser recuperada e, portanto, não é possível trazer o sistema de volta à configuração inicial sem que o meio evolvente reponha essa energia.

Ludwig BoltzmannVimos, também que, conforme Boltzmann demonstrou, a irreversibilidade está associada à complexidade do sistema.
Jules Henri PoincaréAlém disso, o aumento da complexidade do sistema leva a uma maior sensibilidade do sistema às suas condições iniciais, de forma que, como Poincaré demonstrou, em 1890, pequenas perturbações no estado inicial, tais como um ligeira mudança na posição inicial do corpo, levariam a estados finais radicalmente diferentes, tornando impossível predizer a evolução e o estado final do sitema, antecipando a Teoria do Caos.

Todos os processos complexos naturais são irreversíveis.

Edgar Morin (Edgar Nahoum) (1921-)

Edgar MorinMorin é um antropólogo, sociólogo e filósofo francês.

Mudou seu sobrenome de Nahoum para Morin quando participou da Resistência Francesa durante a 2ª Guerra Mundial.

Morin é considerado um dos principais pensadores contemporâneos e o 'fundador da Ciência da Complexidade'.

Sua obra principal é La Méthode (O Método), em seis volumes escritos ao longo de mais de três décadas. Nele, entre outros assuntos, questiona o paradigma cartesiano fragmentador do conhecimento (vide abaixo). Pregava também um conhecimento complexo que entrelace

  • Razão e emoção
  • Sensível e inteligível
  • O real e o imaginário
  • A razão e os mitos
  • A ciência e a arte

Sistemas complexos

Sistemas complexos, no entanto, referem-se não apenas a sistemas com um número muito grande de partes, com pouca interação entre elas, tais como gases. As partes desses sistemas tem um comportamento aleatório e podem ser bem descritas pela estatística e pela termodinâmica. Tais sistemas tem apenas uma complexidade desorganizada.

Há sistemas, porém, que, mesmo não tendo um número muito grande de partes, apresentam vínculos e correlações fortes e não aleatórios entre as partes que, ao mesmo tempo, reduzem a independência entre elas e criam regimes mais uniformes de correlações e interações. Esses sistemas manifestam propriedades que não podem ser descritas em termos das suas partes. Esta forma auto-organizada de complexidade, auto-referencial, no sentido de que a sua ordem interna é gerada a partir da interação dos suas próprias partes, 'emerge' (vide abaixo) do sistema como um todo sem qualquer 'mão guiadora', dispensando explicações teológicas ou teleológicas, como vimos na aula As Contribuições de Galileu e Newton. Tais sistemas são ditos possuírem complexidade organizada.

Dentre os sistemas complexos, vale a pena destacar

  • sistemas caóticos, caracterizados por extrema sensibilidade às condições iniciais, isto é, estados iniciais muito próximos podem levar a estados finais completamente diferentes;
  • sistemas não-lineares, em que o princípio de superposição não se aplica, e, consequentemente, o comportamento do sistema não pode ser descrito como a soma dos comportamentos das suas partes.
Humberto MaturanaComo vimos na página Física Termodinâmica - Entropia, os biólogos chilenos Humberto Maturana e Francisco Varela, consideram um ser vivo como um sistema autopoiético, isto é, constitui-se numa rede fechada de processos, onde as moléculas produzidas geram a mesma rede de moléculas que as produziu, permitindo que ele, embora sempre mantendo interações com o meio, mantenha-se autônomo e constantemente se autorregulando e se autoproduzindo, no sentido de que seus elementos são produzidos a partir dessa mesma rede de interação circular e recursiva.

Emergência

Emergência é o processo de padrões e sistemas complexos formarem-se a partir de uma grande quantidade de elementos relativamente simples em interação. Este conceito tem encontrado aplicação em Filosofia, em Teoria de Sistemas, nas Ciências e nas Artes.

Vale enfatizar que a propriedade, padrão ou sistema, em geral, não corresponde a nenhuma propriedade de qualquer elemento em particular e também não pode ser previstos ou deduzidos das interações individuais desses elementos. Ao contrário do que propunha Descartes, não se compreende o todo estudando as partes (vide abaixo).

Aplica-se aqui o dito popular o todo é maior do que a soma das partes. Não é o mero conjunto das partes que proporciona a emergência, mas a interação entre elas.

Embora assemelhados, os fenômenos de emergência e auto-organização são distintos, podendo um ocorrer sem o outro.

A Termodinâmica do não equilíbrio tem sido aplicada com sucesso para descrever sistemas biológicos, tais como enovelamento/dobramento de proteínas e de transporte através das membranas.

Multidisciplinaridade, Interdisciplinaridade e Transdisciplinaridade

A fragmentação do conhecimento em disciplinas

Para entender os conceitos de Multidisciplinaridade, Interdisciplinaridade e Transdisciplinaridade, temos que voltar à origem da ideia de 'disciplina', tanto entendida como parcela do conhecimento científico, especialidade do pesquisador, como parcela do conteúdo dos estudos escolares.

René DescartesEssa fragmentação do conhecimento em disciplinas, tais como Física, Química, Matemática, Biologia, Medicina, Astronomia, etc., antes agregado sob a denominação geral de Filosofia Natural, historicamente decorre da introdução da Análise, como método filosófico, por Descartes, em 1635, em oposição à Síntese, como vimos na aula História da Epistemologia.

Posteriormente, o termo 'análise' foi sucessivamente estendido para a Matemática, sob a forma da Análise Matemática, para as Ciências naturais, tal como em Análise química; para a Gramática, com a Analise sintática; para a Psicologia, na Psicanálise; para a Economia e Contabilidade, tal como em Análise Financeira e Análise Técnica; em Linguística, na Análise de Discurso, etc.

não poder ver a floresta por causa das árvoresSegundo a ótica cartesiana, conhecer implicava necessariamente numa etapa inicial de fragmentação (análise) do objeto de conhecimento. Acreditava-se que, para entender a floresta, era necessário estudar não só as árvores, como as próprias folhas.

É interessante notar que, dado o primado da experiência, estava fora de questão que o conhecimento pudesse ser de algum modo reunido pela síntese. Com isso, concentrando-se nas folhas, deixava-se de enxergar a floresta.

Conforme atestava Locke:

"Não devemos, pois, incorporar sistemas duvidosos como ciências completas, nem noções ininteligíveis por demonstrações científicas. No conhecimento dos corpos devemos nos contentar a recolher o que pudermos dos experimentos particulares, desde que não podemos, da descoberta de suas essências reais, apreender ao mesmo tempo todo o conjunto, e às pressas compreender a natureza e propriedades de todas as espécies reunidas." (LOCKE, Ensaio acerca do entendimento humano, 1690)

Leonardo da VinciSob influência dessa analítica cartesiana, a Ciência ocidental se desenvolveu orientando-se pela noção de especialidade, criando seus especialistas e estimulando a especialização. O ideal renascentista do sábio-artista-cientista, de que Leonardo da Vinci, visto na aula As Contribuições de Galileu e Newton, é paradigma, e o movimento iluminista do enciclopedismo, concretizado, como já vimos na aula Racionalismo e Empirismo, pelo talento múltiplo dos pioneiros cientistas, simultaneamente físicos, médicos, filósofos, matemáticos, astrônomos, naturalistas e alguns até literatos e políticos, extinguiram-se.
Newton Royal SocietyA prática institucional da Ciência, com suas recém-criadas sociedades e academias científicas, como visto na aula As Contribuições de Galileu e Newton, produzia campos disciplinares cada vez mais rigorosamente delimitados, como territórios demarcados e apropriados pelos seus desbravadores. Tanto se criavam novas disciplinas científicas, como estas se subdividiam internamente cada vez mais até a hiperespecialização observada hoje em dia.
Disciplinaridade - currículoComo reflexo disso, um novo sistema de ensino estruturava-se com base nesta estratégia, a que podemos designar como disciplinar, tal como conhecemos até hoje; História, Matemática, Física, etc., são, desde então, não apenas áreas de conhecimento e pesquisa, mas também componentes curriculares estanques, ministradas por professores especialistas diferentes, em momentos diferentes, utilizando livros diferentes e até, por vezes, salas de aula diferentes, etc.

Multidisciplinaridade

Um mesmo objeto de estudo, tal como uma obra de arte ou uma pintura, pode frequentemente ser estudado de múltiplos pontos de vista, tais como da Arte, da História, da Sociologia, da Psicologia e da Religião, para se compreender as condições e motivações sob as quais foi feita; do ponto de vista da Física e da Química, para se compreender as técnicas e materiais utilizados, etc. Esta atitude é denominada Multidisciplinaridade. Para Nicolescu,

"é uma justaposição de conhecimentos", "é o estudo do ponto de vista de múltiplas disciplinas." (NICOLESCU, 1994)

Interdisciplinaridade

Por outro lado, às vezes, é conveniente e útil importar-se um método de uma disciplina para outra, surgindo, assim, uma interdisciplina. Exemplos são Bioquimica, Geofísica, Neurociência, Etnomatemática, Semiótica, etc. Costuma-se denominar essa atitude Interdisciplinaridade. Para Nicolescu,

"[Interdisciplinaridade] diz respeito sempre ao objecto de estudo de disciplinas do ponto de vista do método. […] Quando se faz a transferência de método de uma disciplina para a outra, fica-se no espaço da interdisciplina." (NICOLESCU, 1994)

Transdisciplinaridade

Transdisciplinaridade é um termo originalmente divulgado por Piaget no I seminário Internacional sobre pluri e interdisciplinaridade, realizado na Universidade de Nice, em 1970. Piaget o concebeu como consequência da sua tríade intra-inter-trans-objetal (PIAGET; GARCIA, 1987) e o lançou como um desafio aos participantes para que pensassem sobre o mesmo.

Ao contrário dos anteriores multidisciplinaridade e interdisciplinaridade, este conceito de transdisciplinaridade é dos mais complexos e, por isso mesmo, muito discutido e pouco compreendido.

Somente no 1º Congresso Mundial sobre a Transdisciplinaridade, considerado 'a primeira grande manifestação mundial da Transdisciplinaridade', realizado no Convento da Arrábida, em Portugal, de 2 a 6 de Novembro de 1994, com entusiástico apoio da direcção-geral da UNESCO, de que resultou a Carta da Transdisciplinaridade, da autoria de Edgar Morin, Basarab Nicolescu e Lima de Freitas, é que se aproxima mais de uma 'definição' desse conceito (vide dos SANTOS, 1995).

Outras vezes, porém,

"é necessário cometer o 'sacrilégio' de cruzar as fronteiras de sua própria disciplina e estabelecer uma ponte que permita estudar fenômenos que situam-se fora e além do âmbito das disciplinas existentes." (dos SANTOS, 1995)

Este é o campo da Transdisciplinaridade. Explica, novamente, Nicolescu:

"Todo o conhecimento ocidental assenta sobre a eficácia da especialização, o que é para mim uma ideia justa." [Mas], "a Transdisciplinaridade não é uma nova disciplina", [e] "não diz respeito nem ao método (nem portanto à transferência do método), nem à justaposição de conhecimentos que fazem parte de uma disciplina já existente." [É, antes,] "uma atitude rigorosa em relação a tudo o que se encontra no espaço que não pertence a nenhuma disciplina." (NICOLESCU, 1994)

Transdisciplinaridade

Dito de outra forma,

"a Transdisciplinaridade é complementar da aproximação disciplinar; ela faz emergir da confrontação das disciplinas novos dados que as articulam entre si e que nos dão uma nova visão da natureza e da realidade. A Transdisciplinaridade não procura a dominação de várias disciplinas, mas a abertura de todas as disciplinas ao que as atravessa e as ultrapassa." (Carta da Transdisciplinaridade, artigo 3º, In: dos SANTOS, 1995)

Transdisciplinaridade e o Ensino

Esse diálogo entre disciplinas, no entanto, não se restringe às chamadas ciências 'duras':

"A visão transdisciplinar é deliberadamente aberta na medida em que ela ultrapassa o domínio das ciências exactas pelo seu diálogo e a sua reconciliação não somente com as ciências humanas mas também com a arte, a literatura, a poesia e a experiência interior." (Carta da Transdisciplinaridade, artigo 5º, In: dos SANTOS, 1995)

Por outro lado, o Ensino encara um enorme desafio, pois, segundo o preâmbulo da Carta da Transdisciplinaridade,

"a proliferação actual das disciplinas acadêmicas e não-acadêmicas conduz a um crescimento exponencial do saber, o que torna impossível uma visão global pelo ser humano." (Carta da Transdisciplinaridade, Preâmbulo, In: dos SANTOS, 1995)

"a rotura contemporânea entre um saber cada vez mais cumulativo e um ser interior cada vez mais empobrecido conduz à escalada dum novo obscurantismo, cujas consequências no plano individual e social são incalculáveis." (Carta da Transdisciplinaridade, Preâmbulo, In: dos SANTOS, 1995)


Veja também estas páginas:

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Confira neste vídeo as mais divertidas respostas à pergunta o que é Transdisciplinaridade? Ao final, a resposta de Regina Migliori, presidente do Instituto Migliori e consultora em Cultura de Paz da Unesco.
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Referências
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Citar esta página:
dos SANTOS, Renato P. . In Física Interessante. 17 Apr. 2017. Disponível em: <>. Acesso em: .

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