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12 - Diferentes Visões Epistemológicas
Pós-positivismo

Gaston Bachelard (1884-1962)

BachelardBachelard foi um físico, filósofo e poeta francês, como já vimos.

Elaborou uma epistemologia histórica procurando considerar as ciências no seu desenvolvimento, no que se chamou de psicanálise do conhecimento objetivo.

Bachelard construiu um arquivo de arquétipos que se encontram na base de toda criação, distribuídos em

  • A Psicanálise do Fogo (1937)
  • A Água e os Sonhos: Ensaio Sobre a Imaginação da Matéria (1942),
  • O Ar e os Sonhos (1943)
  • A Terra e os Devaneios da Vontade (1948)
  • A Poética do Devaneio (1961), etc.

Esta ideia seria aproveitada depois por Piaget & Garcia em seu trabalho Psicogênese e História das Ciências (1987) (vide abaixo).

Para Bachelard, como vimos sobre sua posição sobre o Papel do Experimento, na aula Realidade e Ciência, "O fato científico é sempre artificial, delicado, escondido". Para ele, "Uma medida precisa é sempre uma medida complexa; é, portanto, uma experiência organizada racionalmente." (BACHELARD, O Novo Espírito Científico)..

Afirmava que o conhecimento comum é um 'obstáculo epistemológico', isto é, dificulta a aquisição do conhecimento científico. Esta ideia encontrou eco, posteriormente, no projeto das Concepções Alternativas.

‘Para Bachelard, 'erro’ é um dos tempos da dialética.

Obstáculos pedagógicos

Bachelard apontava obstáculos de ordem pedagógica, tais como:

  • excesso visual, que, em vez de clarificar o conteúdo, distrai o aluno;
  • generalizações excessivas e arbitrárias;
  • analogias e metáforas: parece mas não é – o aluno aprende o que é ou o que não é?

Jean Piaget (1896-1980)

PiagetPiaget, suiço, doutorou-se em Biologia mas considerava-se um epistemólogo.

Piaget elaborou uma Epistemologia genética, a qual, em oposição à Epistemologia clássica, é não-apriorística, não acredita em 'ideias primeiras', platônicas.

Os resultados de seus trabalhos demonstram que o conhecimento é construído pelo sujeito, a partir das suas interações com o objeto, e ao longo do seu percurso de vida.

Assim, por exemplo, o 'grupo dos deslocamentos' não tem nada de a priori, como julgava Poincaré. (PIAGET, Lógica e Conhecimento Científico)

Suas investigações o levaram ao desenvolvimento da teoria sobre a gênese da inteligência: só a inteligência alcança a reversibilidade completa, o que não acontece, por exemplo, com a percepção ou a experiência.

Psicogênese e História das Ciências

Piaget & Garcia, em seu trabalho Psicogênese e História das Ciências (1987) procuraram 

"mostrar que os mecanismos da passagem de um período histórico ao seguinte são análogos aos da passagem de um estádio psicogenético ao seu sucessor." 

"O fato fundamental para a epistemologia das ciências é que o sujeito, partindo de níveis muito baixos, de estruturas pré-lógicas, chegará a normas racionais isomorfas das estruturas das ciências quando do seu nascimento." (PIAGET; GARCIA, 1987)

"Os exemplos mais salientes são sem dúvida as explicações sucessivas que as crianças dão da transmissão de movimento, as quais se elaboram em função das operações do seu pensamento e são comparáveis às explicações do «impetus», dadas em épocas sucessivas por pensadores diferentes, desde Aristóteles a Buridan e Benedetti" (INHELDER, in PIAGET; GARCIA, 1987)

O desenvolvimento do conhecimento permite ao sujeito reconhecer as propriedades do objeto que são invariantes com relação às distintas situações cognitivas, das quais se derivam as possibilidades para superar o subjetivismo e alcançar uma maior objetividade do saber.

Karl Popper (1902-1994)

PopperPopper, austro-húngaro, doutorou-se em Psicologia mas é conhecido como filósofo da ciência.

Popper aconselhava o uso do método hipotético-dedutivo, o qual opera fazendo conjecturas teóricas audaciosas que seriam refutadas ou não pelos cientistas, através da experimentação.

Ficou famoso por defender o falsificacionismo (vide abaixo) como um critério de demarcação entre a ciência e a não-ciência.

Popper e o problema da indução

Conforme vimos sobre a Crítica ao Indutivismo na aula Racionalismo e Empirismo, o método indutivo é criticado justamente por seu 'salto indutivo' epistemologicamente injustificável do particular para o geral.

Como vimos nessa mesma aula, ao contrário do que propunha Bacon, nenhum número restrito de observações pode acarretar logicamente um enunciado irrestrito. Um milhão de evidências não provam uma teoria!

Popper argumentava que é possível derivar conclusões verdadeiras a partir de premissas falsas:

  • "Todo metal conduz eletricidade" (V);
  • "Grafite é metal" (F);
  • -> "Grafite conduz eletricidade" (V!)

Com isso, vê-se que não há 'retransmissão da verdade' das conclusões (observações) para as leis, isto é, observações verdadeiras não fazem necessariamente leis verdadeiras, contrariando o princípio da indução.

corvo pretoComo vimos sobre o Paradoxo do corvo, na aula Racionalismo e Empirismo, a afirmação "este corvo é preto" não implica em que "Todo corvo é preto"

Podem-se, na verdade, criar diferentes generalizações (leis) a partir de um mesmo conjunto de observações. Como vimos 

'Esta maçã é vermelha' tanto corrobora a 'lei' 'Todos os corvos são pretos', como a 'lei' 'Todos corvos são brancos'!

Falsificacionismo

Como vimos sobre os métodos dedutivo e indutivo, na aula Racionalismo e Empirismo,

Uma observação é enunciado singular (p) (particular);

Uma lei é um enunciado universal (P) (geral);

Na dedução, vamos de um universal para um singular (P->p);

Na indução, vamos de um singular para um universal (p->P), o que não é permitido pela Lógica.

Popper, de certa forma, resolveu o problema da indução, mencionado acima, invertendo o processo. 

Ele observou que, embora observações particulares (p) do tipo "este corvo é preto" não podem ser usadas para embasar a afirmação universal (P) "Todo corvo é preto", a observação singular (~p) "este corvo é branco" serve, ao contrário, para mostrar que a afirmação universal (~P) "Todo corvo é preto" é falsa, usando a conhecida regra inferencial chamada modus tollens

  • Se P implica p (P->p)
  • e p é falso (~p)
  • então, P é falso (~p->~P) (caso contrário, p teria de ser verdadeira)

Assim, segundo Popper, resultados podem apenas falsificar uma teoria, nunca prová-la.

Racionalismo crítico

Essa postura epistemológica Popper designou de Racionalismo Crítico, enfatizando sua rejeição tanto ao Racionalismo clássico quanto ao Empirismo-indutivista, já vistos na aula Racionalismo e Empirismo.

Segundo ela,

  • nenhuma quantidade de observações confirmatórias garantirá que uma teoria seja eternamente válida e imutável;
  • uma Teoria Científica é sempre conjetural e provisória, sendo válida, apenas, até ser refutada (falsificada);
  • para ser científica, uma teoria deve poder ser refutável (testável), em princípio;
  • uma afirmação não refutável é dogmática, não científica;
  • a 'Verdade' é inalcançável; apenas pretendemos nos aproximar dela, por tentativas!

Apesar deste último item, Popper distingue-se do Positivismo, embora se aproxime mais dele do que do Empirismo ou do Racionalismo.

Por outro lado, esse princípio de falseabilidade, por vezes, encontra dificuldades, por exemplo, quando aplicado à Matemática.

Num exemplo conhecido, discute-se se e como a afirmação 2+2=4 poderia ser falsificável e, caso não possa, como poderia não ser científica? A solução de Popper é que, em Matemática pura, 2+2=4, mas, quando aplicada ao mundo real,  2 maçãs+2 maçãs=4 maçãs , esta é passível de ser falsificada experimentalmente.

Segundo essa concepção, o conhecimento progrediria, não pela verificação empírica indutiva da correção das teorias, como pregado pelo empirismo Baconiano, mas pela eliminação das teorias refutadas pela experimentação. As teorias falsificadas seriam substituídas por teorias com maior poder explanatório, isto é, seriam teorias que dessem conta também das observações que falsificaram as teorias anteriores.

Assim, por exemplo, 

  • a mecânica aristotélica explicava observações de situações cotidianas, mas foi falsificada pelos experimentos de Galileu e foi substituídos pela mecânica newtoniana, que deu conta do fenômeno observado por Galileu (e outros). A mecânica newtoniana explicava também o movimento observado dos planetas e a mecânica dos gases. 
  • a teoria ondulatória da luz de Young (ondas num éter luminífero) substituiu as 'partículas de luz' de Newton, mas, por sua vez, foi falsificada pelo experimento de Michelson-Morley e foi, também, substituída pela eletrodinâmica de Maxwell, a qual foi substituída pela relatividade especial de Einstein que levou em conta todos os fenômenos recém-observados. 
  • a mecânica newtoniana, aplicada à escala atômica, não podia fornecer uma resposta à catástrofe ultravioleta nem ao paradoxo de Gibbs, ou de como órbitas eletrônicas poderiam existir sem que os elétrons irradiassem sua energia em espiral em direção ao núcleo, e foi substituída pela mecânica quântica.

Assim, teorias concorrentes passam por um processo de eliminação de erros por falsificação – o que Popper via como um processo análogo à seleção natural na evolução biológica. As teorias que 'sobreviverem' a esse processo não são mais verdadeiras do que as outras, mas são as que se melhor se adaptam à situação empírica.

No entanto, ambas posturas (Baconismo e Racionalismo crítico) se servem das mesmas ferramentas: a consistência lógica e a conformidade com os fatos.

Popper - santos e pecadores Segundo Gellner, colega de Popper, "a diferença entre os dois modelos situa-se apenas em saber se os fatos condenam os pecadores ou canonizam os santos."(GELLNER, 1987, p. 35)

"Para o jovem Popper havia alguns pecadores apropriadamente certificados, mas nunca santos definitivamente canonizados." (GELLNER, 1987, p. 35)

Ironicamente, essa exigência de refutabilidade em princípio deve se aplicar ao próprio Racionalismo Crítico, sob pena de ele deixar de ser científico. Mas isso faz com que eventualmente existam proposições a que a falseabilidade não se aplique!

"É difícil dizer o que é verdade, mas às vezes é fácil identificar a mentira." (Albert Einstein)

Popper e o 'método crítico'

Para Popper, conhecimento são conjeturas construídas, não apenas racionalmente mas incluindo até elementos metafísicos.

Whewell, em 1837, estabeleceu uma distinção entre os, assim denominados (MIGUEL; VIDEIRA, 2011), 

  • 'contexto da justificação', supostamente objetivo, lógico, racional, impessoal, a reconstrução idealmente lógica de hipóteses e teorias, descrevendo as estruturas conceituais, os enunciados e os aspectos normativos de verificação e aceitação seu valor de verdade e o exame de sua adequação em relação às evidências empíricas e seus testes, não-histórico e o único para ser estudado pela Epistemologia, e
  • 'contexto da descoberta', julgado como subjetivo, ilógico, não-racional, pessoalmente idiossincrático, estruturado de forma incompleta, historicamente real, descrevendo as origens históricas, o desenvolvimento psicológico e as condições sócio-político-econômicas, os aspectos factuais, o estágio inicial de invenção e construção de hipóteses e teorias, a ação da imaginação e da criatividade que constituem seu processo de gênese, e excluído da Epistemologia

Por outro lado, como vimos sobre o Papel do Experimento, na aula Realidade e Ciência, as observações são sempre impregnadas de teorias.

Hipóteses ad-hoc

No entanto, uma afirmação pode sempre ser ‘salva’ por hipóteses ad-hoc. Popper exemplificou dizendo que, ao saber que 'um corvo branco foi avistado na Austrália', alguém pode introduzir a hipótese ad-hoc de que 'todos os corvos são pretos, exceto aqueles encontrados na Austrália', ou ainda pode adotar uma postura mais cínica e afirmar que 'os observadores de pássaros australianos são incompetentes'.

Tal falseabilidade ingênua (de asserções menores, tais como leis) deveria fornecer, mas, infelizmente, não fornece uma maneira de lidar com hipóteses concorrentes para muitos assuntos controversos tais como, por exemplo, teorias de conspiração e lendas urbanas. Por um lado, quando confrontadas com o fato de que não há suporte teórico para uma dada observação, pode-se argumentar que não há nada para ser visto, que tudo está normal, ou que as diferenças ou as aparencimentos são muito poucos para serem estatisticamente significativas. Do outro lado, estão aquelas pessoas que admitem que uma observação realmente ocorreu e que uma declaração universal foi falsificada, como consequência. 

Popper - falseabilidade ingênuaPara os adeptos de teorias de conspiração, por exemplo, o governo afirmar repetidamente que não há provas da existência de discos voadores, para eles, é uma prova de que as as provas existem e que o governo as esconde.

Da mesma forma, vale lembrar o velho aforisma do cosmologista e astrofísico britânico Martin John Rees:

A ausência de evidência não é evidência de ausência!

Física Ondas - Ondas de rádio - Experimento de Hertz Assim, por exemplo, somente em 1886 houve evidência empírica da existência das ondas de rádio, quando Hertz conseguiu produzí-las e detetá-las.
Física Ondas - Radiação eletromagnética - SolNo entanto, nos 4,5 bilhões de anos anteriores, o Sol já banhava a Terra com radiação eletromagnética, incluindo ondas de rádio, que antes de Hertz não eram detetadas.

É obvio que não se pode dizer que as ondas de rádio não existiam até 1886, uma vez que não havia evidência empírica para elas até então!

Popper - coelho da páscoaDa mesma forma, o fato de que não se pode provar que "Papai Noel/coelhinho da Páscoa/etc existem" não prova que eles não existam

Apesar disso, os céticos científicos recusam liminarmente fenômenos psíquicos, metafísicos, religiosos e dogmas (contrariando a própria idéia deles de não ter certeza absoluta a respeito de qualquer verdade), devido ao fato de ser impossível provar sua existência!

No entanto, mesmo se não se pode 'provar' alguma coisa, pode-se ter um 'razoável' grau de confiabilidade empírica na existência ou não de alguma coisa. Tudo depende do grau de confiabilidade empírica: 

Epistemologia - Argumento da inexistência pode-se ter uma grande confiabilidade empírica na não existência de sorvete na geladeira
Epistemologia - Argumento da inexistência mas, dado o tamanho do Universo, só se pode ter uma confiabilidade muito pequena de não existirem extraterrestres.

Holismo epistemológico

Como vimos, a falsificação ingênua não permite que os cientistas, que dependem de critérios objetivos, apresentem uma falsificação definitiva das declarações universais (teorias).

Popper - Holismo epistemológicoAo contrário, os cientistas baseiam-se num 'holismo epistemológico', segundo o qual, as teorias e hipóteses científicas suportam-se mutuamente numa rede conceitual que as interliga, como num andaime, em que cada travessa individual contribui para a solidez do todo.
Popper - julgamento coletivo das teoriasDesta forma, uma teoria científica não pode ser testada isoladamente e nem refutada isoladamente por uma observação conflitante. Nas palavras de Quine, "as teorias enfrentam em conjunto o tribunal da experiência".
NetunoPor exemplo, na primeira metade do século 19, os astrônomos observavam a que trajetória do planeta Urano apresentava irregularidades, discrepâncias com relação à trajetória prevista pelas tabelas de Bouvard, calculadas segundo a Lei da Gravitação Universal de Newton.

Havia um número indeterminado de possíveis explicações para esse desvio, tais como

  • as tabelas de Bouvard estarem erradas por causa de erros de cálculo, ou
  • as observações telescópicas estream erradas por causa de algum fator desconhecido, ou 
  • as leis de Newton estarem erradas, ou
  • Deus mover planetas diferentes de formas diferentes, ou
  • etc.. 

Bouvard aventou a explicação de que um planeta desconhecido estaria afetando a trajetória de Urano e que a hipótese de que há sete planetas do nosso sistema solar é que era falsa

No entanto, essa explicação pareceu ousada demais para os astrônomos da época, os quais ou a rejeitaram ou deram menor importância, não se empenhando em procurar o suposto oitavo planeta.

Em 1846, o planeta interferente, o qual hoje conhecemos como planeta Netuno, foi encontrado por Galle e d'Arrest, a apenas 1° de distância da posição prevista pelos cálculos de Le Verrier.

Neste caso, foi confirmada a hipótese ad-hoc 'existe um oitavo planeta no sistema solar que causa as irregularidades na órbita de Urano' e, com isso, não apenas 'salvou' como deu mais força à Teoria da Gravitação Universal de Newton.

No entanto, Lakatos (vide abaixo) propos um interessante exemplo de excesso de hipóteses ad-hoc exatamente a partir de uma situação semelhante à do desvio da órbita de Urano:

"A história é sobre um caso imaginário de mau comportamento planetário. 

Um físico da era pré-einsteiniana utiliza a mecânica de Newton e a sua lei da gravitação, N, as condições iniciais aceites, I, e calcula, com a sua ajuda, a trajetória de um pequeno planeta recém descoberto p. Mas o planeta desvia-se da trajetória calculada. Será que o nosso físico newtoniano considera que o desvio era proibido pela teoria de Newton e, portanto, uma vez determinado, ele refuta a teoria N

Não. Ele sugere que deve existir um planeta até então desconhecido, p', que perturba a trajetória de p. Calcula a massa, a órbita, etc., deste planeta hipotético e depois pede a um astrônomo experimental que teste a sua hipótese. O planeta p' é tão pequeno que nem mesmo o melhor telescópio existente tem possibilidade de o observar. O astrônomo experimental requer uma verba de pesquisa para construir um maior ainda . Três anos depois, o novo telescópio fica pronto. Se o planeta desconhecido p' fosse descoberto, seria aclamado como uma nova vitória da ciência newtoniana. Mas o planeta p' não é descoberto. Será que o nosso cientista abandona a teoria de Newton e a sua hipótese de um planeta perturbador p'

Não. Desta vez, ele sugere que uma nuvem de poeira cósmica, n, nos oculta o planeta. Calcula a localização e as propriedades desta nuvem e requer um subsídio de investigação para enviar um satélite a testar os seus cálculos. Se os instrumentos do satélite, possivelmente novos, baseados numa teoria pouco testada, registrassem a existência da nuvem conjectural n, o resultado seria aclamado como uma vitória notável para a ciência newtoniana. Mas a nuvem n não é encontrada. Será que o nosso cientista abandona a teoria de Newton, juntamente com a ideia do planeta perturbador p' e da nuvem n que o oculta? 

Não. Sugere que há um campo magnético qualquer c nessa zona do universo que perturbou os instrumentos do satélite. Se o campo magnético c fosse encontrado, os newtonianos celebrariam uma vitória sensacional. Mas não é encontado. Será isto considerado como uma refutação da ciência newtoniana? 

Não. Ou se propõe ainda outra hipóteses auxiliar engenhosa ou... toda a história é enterrada nos volumes poeirentos dos periódicos e nunca mais é mencionada." (CHALMERS, 1993, p. 96-97)

Note-se, porém, que, no caso do planeta Mercúrio, cujo periélio  precessiona 43 segundos de arco por século, também foram propostas diversas hipóteses ad-hoc para salvar a Teoria Newtoniana:

  • a existência de um planeta dentro da órbita de Mercúrio, designado por Vulcano; 
  • a existência de um satélite de Mercúrio; 
  • erro na massa de Vênus até 10% maior; 
  • achatamento gravitacional no Sol
  • modificações na lei da gravidade, de modo que ela fosse proporcional a 1/d2 + ε, sendo ε um número pequeno.

No caso de Mercúrio, porém, nenhuma hipótese ad-hoc foi confirmada e somente a Teoria da Relatividade Geral de Einstein conseguiu explicar esse fenômeno em 1915. Desta forma, juntamente com mais um grande número de outras evidências, a Teoria Newtoniana foi considerada refutada.

Navalha de OccamCom isso, conclui-se que, em caso de uma observação discordante, os cientistas devem exercer bom senso para decidir qual parte do 'andaime' científico deve ser alterado, já que, em princípio, um conjunto suficiente de hipóteses ad-hoc permite 'salvar' qualquer teoria. Geralmente, é utilizado o critério de parcimônia, também denominado Navalha de Occam, usualmente expresso como

"Se em tudo o mais forem idênticas as várias explicações de um fenômeno, a mais simples é a melhor."

Ou seja, prefere-se a teoria que necessite de menos hipóteses ad-hoc.

Popper e as pseudociências

Uma teoria ser indutiva ou especulativa não é um bom critério de demarcação, pois

  • Pseudociências podem ser indutivas
  • Ciência pode ser especulativa

Critério de demarcação de Popper

Popper propos, como 'critério de demarcação', que Ciência é refutável e pseudociência, não.

No entanto, como veremos adiante, Bunge desenvolveu essa distinção, introduzindo outras categorias, além de ciência e pseudociência.

Exemplos de pseudociências, segundo Popper:

  • astrologia,
  • psicanálise,
  • materialismo histórico Marxista
  • Biologia de Lyssenko (foi obstáculo à entrada da na União Soviética)

Relação com o Ensino de Ciências

  • Quão realista é a proposta de 'Aprendizagem por Descoberta'?
  • Quanto do ensino de ciências não passa de uma pregação d’‘O Método Científico’?
  • E, também, não passa uma visão da Observação como fonte de conhecimento (Empirismo)?
  • Quanta ênfase na 'Objetividade', implicando num abandono da especulação, da intuição, da criatividade, partes intrinsecamente integrantes, como vimos, do processo de descoberta? 
  • Quantas leis vistas, não como construídas, mas descobertas na experimentação (visão empirista-realista)
  • Quantos roteiros de laboratório com ênfase empirista-indutivista?

Thomas Samuel Kuhn (1922-1996)

Thomas KuhnKuhn, norte-americano, doutorou-se em Física mas é mais conhecido como historiador e filósofo da Ciência.

Ficou famoso pelos conceitos de 'Revoluções Científicas' e 'paradigmas'.

Após doutorar-se em Física, por Harvard, Kuhn teve que preparar um curso de ciências para não cientistas e decidiu ilustrar o curso com exemplos históricos de progressos científicos.

Até então, tinha tido pouco contato com a Filosofia e a História, mas vislumbrou uma construção não-linear do conhecimento, com saltos, rupturas e substituições de paradigmas vigentes. 

Constatou que, numa perspectiva histórica, a Ciência é muito diferente da visão linear dos textos de física.

Kuhn e as ‘Revoluções Científicas’

Para Kuhn, as ‘Revoluções Científicas’ acontecem em três fases:

  • Fase pré-científica: pluralista, competição de paradigmas
  • Ciência normal: monista, exploração do paradigma
  • Revolução científica: crise no paradigma, substituição por paradigma alternativo (incomensurável), conversão, tradução
Kuhn - Revolução na Ciência

Paradigmas

Para Kunh,

"Um paradigma é o que os membros de uma comunidade científica compartilham. Reciprocamente, uma comunidade científica consiste de homens que compartilham um mesmo paradigma." (KUHN, 1970)

Um paradigma é uma matriz disciplinar, um conjunto de leis, modelos, valores, aceites pela comunidade. Não é conhecimento rigoroso, é tácito, flexível e vai sendo melhor elaborado com o desenvolvimento da ciência que o reconhece.

Um paradigma inclui:

  • um modelo teórico,
  • o tipo de problemas que devem ser considerados,
  • as formas de solucioná-los e
  • os instrumentos que podem ser utilizados nas experiências.

Isso quer dizer que o paradigma exclui os problemas para o qual não se adapta!

A fase da Ciência normal

Kuhn - fase da Ciência normalNesta fase, o cientista trabalha como numa resolução de quebra-cabeças.

Parte-se do pressuposto de que se tem todas as peças do quebra-cabeças, isto é, de que os elementos do paradigma são suficientes para resolver todos os problemas definidos por ele.

Nesta fase, se algo não funciona (uma anomalia), em princípio, a culpa é do pesquisador, não do quebra-cabeças. Isto é, deve ser um erro de aplicação do paradigma.

A fase das Crises

Quando as anomalias se multiplicam, está-se na fase das crises.

No entanto, para ocorrer uma crise, é preciso

  • um acúmulo de anomalias (uma andorinha não faz verão e uma anomalia não faz uma crise)
  • um mudança na percepção da importância das anomalias (as anomalias precisam ser encaradas como anomalias)
  • o surgimento de um paradigma concorrente (se não há concorrente, 'o velho vai servindo')
Kuhn - Crises

É muito difícil que uma ciência abandone um paradigma sem já ter outro para substituí-lo.

Se um cientista decide, ainda que com boas razões, abandonar sua certeza sobre como é o mundo sem substituí-lo por nada, ele deixa de ser cientista.

Revolução científica

A Revolução científica acontece quando

  • uma crise no paradigma
  • causa sua substituição por um paradigma alternativo
  • que deve levar à 'conversão' dos cientistas ao novo paradigma
  • e, finalmente, à tradução do novo paradigma 

Mais do que um período de mudança de paradigmas, uma Revolução científica é uma mudança na maneira de olhar o mundo!

Mudança de paradigma

Kuhn - Mudança de paradigma

Quando se vê duma maneira (paradigma), não se consegue ver da outra!

Não se consegue ver o coelho e o pato ao mesmo tempo.

Revoluções nas Ciências

Kuhn - Revoluções nas Ciências

O papel dos Manuais

Para Kuhn, os manuais

"Referem-se a um corpo já articulado de problemas, dados e teorias e […] ao conjunto de particular de paradigmas aceito pela comunidade científica na época em que […] foram escritos. […] não é necessário que proporcionem informações autênticas a respeito ao modo pelo qual essas bases foram inicialmente reconhecidas e posteriormente adotadas pela profissão." (KUHN, 1970)

Os manuais tem, assim, a função de 'evangelizar' seus leitores no paradigma vigente.

Proposta de Ensino de Ciências

Pozo (1998) apresenta uma proposta de Ensino de Ciências que se assemelha à concepção de paradigmas e Revolução científica e consistiria em

  • conscientização do aluno de suas concepções alternativas (CA) (paradigma);
  • crítica às CA (crise);
  • apresentação da concepções científicas (CC) (tradução do paradigma concorrente);
  • promoção da CC e mudança conceitual da CA para a CC(conversão).
No entanto, já se desistiu dessa proposta de conflitos cognitivos para causar mudanças conceituais porque, na verdade, elas não ocorrem. (MOREIRA; GRECA, 2003; MORTIMER, 1995). 

Mario Bunge (1919-)

Mario BungeBunge, argentino, doutorou-se em Física e Matemática, mas é mais conhecido como filósofo.

Sua obra abrange Semântica, Ontologia, Epistemologia, Filosofia da Ciência e Ética.

Bunge e a Pseudociência

Bunge introduziu dois outros campos cognitivos, além de ciência e pseudociência (BUNGE, 1982):

Comparação
Ciência
Ex.: Física, Química, Biologia, etc.
Protociência
Ex.: Abiogênese, Criônica, Teoria M, Sociobiologia, etc.
Não-ciência
Ex.: Artes,
Pseudociência
Ex.: Parapsicologia, Psicanálise, Frenologia

Para Bunge, a pseudociência é perigosa porque

  1. passa especulação selvagem e dados não controlados por resultados de pesquisa científica
  2. representa mal a atitude científica (o `espírito' da Ciência);
  3. contamina alguns campos da ciência, especialmente os `soft‘;
  4. é a acessível a milhões de pessoas (enquanto a ciência genuína é difícil e, portanto, elitista);
  5. tornou-se um negócio multibilionário alimentando-se da crendice popular
  6. tem o suporte de poderosos grupos de pressão – às vezes, igrejas e partidos políticos – e a simpatia dos meios de comunicação de massa

Visões populares de Ciência

Bunge aponta que a Ciência é popularmente vista como:
  • Consensual: ciências humanas abrigam controvérsia e Ciência, não. Mas, e as controvérsias sobre a Mecânica Quântica?
  • Empírica: Ciência só aceita dados empíricos e sínteses indutivas, excluindo hipóteses. Mas, e não-observáveis como átomos, etc.?
  • Utilitária: só resultados práticos contam. Mas isso poderia ser um critério para Tecnologia; a Ciência procura a verdade.
  • Formalista: um corpo de conhecimento é científico se foi totalmente matematizado. Mas, e as Ciências em estado embrionário? E a pesquisa experimental?
  • Refutacionista: a marca da Ciência é a refutabilidade. Então toda crença refutável é Ciência?
  • Metodista: o único requisito para a Ciência é adotar o ‘método científico’. No entanto, a "correlação entre o comprimento do nariz e opinião política" é científica?

Portanto, para Bunge, estes não seriam critérios de demarcação.

Critérios de demarcação de Bunge

Para Bunge (1982), um campo cognitivo tem 8 características C={G, F, D, B, P, K, O, M}:

  • G: visão de mundo, ou fundamentação teórica de C;
  • F: base formal, ferramentas matemáticas ou lógicas empregáveis em C;
  • D: domínio ou universo de discurso de C: os objetos de que C trata;
  • B: base específica, conjunto de pressupostos de C, emprestados de outros campos cognitivos;
  • P: problemática, ou conjunto de problemas que C pode tratar;
  • K: fundo específico de conhecimento acumulado por C;
  • O: objetivos ou metas de C;
  • M: métodos utilizados por C.

Para um campo cognitivo ser ciência, há 10 condições:

  1. cada uma das oito componentes acima de C é mutável, embora lentamente, ao longo do tempo, como resultado do próprio avanço da pesquisa;
  2. a visão de mundo G contém
    1. uma ontologia dos objetos;
    2. uma epistemologia realista;
    3. um espírito de livre pesquisa;
  3. a base formal F é uma coleção atualizada de teorias matemáticas e lógicas;
  4. o domínio D é composto exclusivamente de entidades reais;
  5. o fundo específico de conhecimento B é uma coleção atualizada de dados, hipóteses e teorias bem confirmados, obtidos de outros campos cognitivos relevantes a C;
  6. a problemática P consiste exclusivamente de problemas cognitivos relativos à natureza do domínio D;
  7. o fundo de conhecimento K é uma coleção de teorias, hipóteses e dados atualizados e testáveis, compatíveis com aqueles em B e obtidos em C previamente;
  8. os objetivos O incluem descobrir ou utilizar as leis em D, sistematizar hipóteses sobre D em teorias e refinar os métodos em M;
  9. os métodos em M consistem exclusivamente de procedimentos verificáveis e justificáveis;
  10. C é uma componente de um campo cognitivo mais amplo.

Qualquer campo de conhecimento que falhar em satisfazer todos as dez condições acima será designada uma pseudociência.

De outra forma, uma pseudociência é um campo cognitivo PS={G, F, D, B, P, K, O, M} tal que 

  1. as oito componentes acima de C mudam muito pouco ao longo do tempo e, se mudam, o fazem de forma limitada, como resultado de pressões externas, não de pesquisa científica;
  2. a visão de mundo G inclui
    1. uma ontologia dos objetos contendo entidades ou processos imateriais, tais como espíritos;
    2. uma epistemologia que dá lugar a argumentos de autoridade  ou modos de cognição acessíveis apenas para os 'iniciados';
    3. um espírito de defesa do dogma, incluindo violência, se necessário;
  3. a base formal F de PS é modesta; a lógica não é respeitada e a modelagem matemática é a exceção, em vez da regra;
  4. o domínio D de PS contém entidades irreais ou não verificáveis, tais como influências astrais, espíritos, superegos,destino, OVNI's, etc.
  5. o fundo específico de conhecimento B de PS é muito pequeno ou nulo; uma pseudociência aprende pouco de outros campos de conhecimento e, por sua vez, contribui pouco para os outros campos;
  6. a problemática P de PS inclui muito mais problemas práticos relativos à vida humana (incluindo 'como sentir-se melhor') do que problemas cognitivos (pseudociências, talvez, fossem melhor descritas como pseudotecnologias);
  7. o fundo de conhecimento K de PS é praticamente estagnado e contém muitas hipóteses não testáveis ou falsas, em conflito com hipóteses científicas bem confirmadas, e não contém leis;
  8. os objetivos O de PS são mais práticos do que cognitivos; em geral, não incluem a busca de leis previsões de fatos a partir de leis;
  9. os métodos em M de PS não são nem verificáveis por procedimentos científicos nem são justificáveis por teorias bem confirmadas; em geral, crítica não é bem vinda nas pseudociências;
  10. não há outro campo cognitivo, exceto, talvez, outra pseudociência que partilhe com PS e esteja, assim, em posição de enriquecer ou controlar PS; isto é, cada pseudociência PS é praticamente isolada. 

Imre Lakatos (1922-1974)

Imre LakatosLakatos, húngaro, doutorou-se em Matemática, mas é mais conhecido como filósofo da ciência.

Programa de Pesquisa

Lakatos tentou compatibilizar o falsificacionismo de Popper, visto acima, com a ideia das revoluções científicas de Kuhn, vista acima.

Para Lakatos, o que nós entendemos como uma 'teoria' poderia ser visto como uma sucessão de teorias e técnicas experimentais ligeiramente diferentes, desenvolvidas ao longo do tempo, e que compartilham uma ideia comum. 

A essa ideia comum, Lakatos chamou de seu 'núcleo duro', enquanto que a sucessão em mudança, chamou de 'programas de investigação'. 

Segundo essa visão, os cientistas envolvidos em um 'programa' tentarão 'proteger' o núcleo teórico das tentativas de falsificação por trás de um cinturão protetor de hipóteses auxiliares ad-hoc.

Na figura abaixo, estão esquematizados

  • núcleo duro: teorias e hipóteses ('decretadas' 'irrefutáveis')
  • cinturão protetor: teorias e hipóteses auxiliares (ajustáveis às observações)
Lakatos - Cinturão protetor e núcleo duro

Exemplo de programa

O Programa da Mecânica, desde a Mecânica Aristotélica, passando pela Mecânica Newtoniana até a Relatividade Geral.

Programas

  • Programa em degeneração: não prevê mais fatos novos, apenas se protege
  • Programa progressivo: novas predições e corroborações
Lakatos - Cinturão protetor e núcleo duro

Competição de Programas

Segundo Lakatos, quando um programa é progressivo, é razoável que um cientista vá alterando suas hipóteses para que ele vá se adaptando às anomalias. No entanto, se ele entra em degeneração, ele entra em competição com outro programas e pode ser falsificado, isto é, superado por um  programa melhor, progressivo,.

Heurísticas

Para Lakatos, um programa pode ter dois tipos de heurísticas
  • Positiva: conjunto parcialmente articulado de idéias de como modificar, sofisticar, o cinturão protetor 'refutável'. Ex.: Newton e o Cálculo
  • Negativa: núcleo duro é ‘decretado’ não-refutável. Discrepâncias com observações são eliminadas por modificações das hipóteses do cinturão protetor. Ex.: descoberta de Urano

Critério de Demarcação de Lakatos

Uma Teoria, para ser cientifica, deve estar imersa em um Programa de Pesquisa e este deve ser progressivo.

  • Ciência madura: consiste de programas de pesquisa, tem poder heurístico
  • Ciência imatura: colcha de retalhos de tentativas e erros

Pós-positivistasContinue conhecendo o Pós-positivismo.

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