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12 - Diferentes Visões Epistemológicas
Pós-positivismo

Conforme vimos na aula sobre a crise da Ciência no início do século XX, no final do século XIX, para a maioria dos físicos, parecia que a Física estava terminada, pronta. O Positivismo pregava as Ciências exatas como modelo de toda atividade teórica ou prática.

Como vimos na aula sobre o Positivismo, no século XX, a crise interna da ciência mecanicista, ideal e ídolo do Positivismo, que desembocou na Mecânica Quântica, na Relatividade, na Teoria do Caos, etc., levou a uma revisão e crítica da ciência e do Positivismo por parte dos cientistas.

Com o declínio do Positivismo no começo do século XX, vários pensadores rompem com ele e propõem abordagens mais coerentes com essa nova visão relativista e incerta da Ciência. Embora suas abordagens sejam muito distintas, por simplicidade, serão enquadrados, aqui, sob o rótulo genérico de Pós-Positivistas.

Gaston Bachelard (1884-1962)

BachelardBachelard foi um físico, filósofo e poeta francês, como já vimos.

Embora não possa ser propriamente rotulado pós-positista, distinguiu-se de seus antecessores por propor uma epistemologia histórica, não estática nem apriorística, procurando considerar as ciências no seu desenvolvimento, no que se chamou de psicanálise do conhecimento objetivo.

Bachelard construiu um arquivo de arquétipos que se encontram na base de toda criação, discutidos em:

  • A Psicanálise do Fogo (1937)
  • A Água e os Sonhos: Ensaio Sobre a Imaginação da Matéria (1942),
  • O Ar e os Sonhos (1943)
  • A Terra e os Devaneios da Vontade (1948)
  • A Poética do Devaneio (1961), etc.

Esta ideia seria aproveitada depois por Piaget & Garcia em seu trabalho Psicogênese e História das Ciências (1987) (vide abaixo).

Para Bachelard, como vimos sobre sua posição sobre o Papel do Experimento, na aula Realidade e Ciência, "O fato científico é sempre artificial, delicado, escondido". Para ele, "Uma medida precisa é sempre uma medida complexa; é, portanto, uma experiência organizada racionalmente." (BACHELARD, O Novo Espírito Científico)..

Afirmava que o conhecimento comum é um 'obstáculo epistemológico', isto é, dificulta a aquisição do conhecimento científico. Esta ideia encontrou eco, posteriormente, no projeto das Concepções Alternativas.

‘Para Bachelard, 'erro’ é um dos tempos da dialética.

Obstáculos pedagógicos

Bachelard apontava obstáculos de ordem pedagógica, tais como:

  • excesso visual, que, em vez de clarificar o conteúdo, distrai o aluno;
  • generalizações excessivas e arbitrárias;
  • analogias e metáforas: parece mas não é – o aluno aprende o que é ou o que não é?

Na verdade, Souza e Porto (2013) identificaram dois principais obstáculos à compreensão do papel das representações em livros texto, como o exemplo abaixo:

[...] Não há, porém, tantas moléculas de água na superfície da solução quantas na superfície da água pura, pois algumas foram deslocadas pelos íons ou moléculas do soluto. Assim, o número de moléculas de água que podem escapar da superfície do líquido fica reduzido e, por isso, a pressão de vapor é mais baixa que a pressão de vapor da água pura, na mesma temperatura. [...] Chegamos [assim] à lei de Raoult (KOTZ; TREICHEL, 1998, p. 439-440, apudSOUZA e PORTO, 2013).

Epistemologia - iconicidade em livros texto
  1. leis são apresentadas depois da explicação baseada no comportamento das partículas, como se esse comportamento fosse consequência do fato molecular e não esse último uma explicação possível para o fato experimental;
  2. esse discurso é reforçado pelo aumento da iconicidade em relação à teoria que precede as ilustrações, com representações dos ângulos de ligação previstos para a molécula de água e pelos distintos raios iônicos.

Jean Piaget (1896-1980)

PiagetPiaget, suiço, doutorou-se em Biologia mas considerava-se um epistemólogo.

Piaget elaborou uma Epistemologia genética, a qual, em oposição à Epistemologia clássica, é não-apriorística, não acredita em 'ideias primeiras', platônicas.

Os resultados de seus trabalhos demonstram que o conhecimento é construído pelo sujeito, a partir das suas interações com o objeto, e ao longo do seu percurso de vida.

Assim, por exemplo, o 'grupo dos deslocamentos' não tem nada de a priori, como julgava Poincaré. (PIAGET, Lógica e Conhecimento Científico)

Suas investigações o levaram ao desenvolvimento da teoria sobre a gênese da inteligência: só a inteligência alcança a reversibilidade completa, o que não acontece, por exemplo, com a percepção ou a experiência.

Psicogênese e História das Ciências

Piaget & Garcia, em seu trabalho Psicogênese e História das Ciências (1987) procuraram 

"mostrar que os mecanismos da passagem de um período histórico ao seguinte são análogos aos da passagem de um estádio psicogenético ao seu sucessor." 

"O fato fundamental para a epistemologia das ciências é que o sujeito, partindo de níveis muito baixos, de estruturas pré-lógicas, chegará a normas racionais isomorfas das estruturas das ciências quando do seu nascimento." (PIAGET; GARCIA, 1987)

"Os exemplos mais salientes são sem dúvida as explicações sucessivas que as crianças dão da transmissão de movimento, as quais se elaboram em função das operações do seu pensamento e são comparáveis às explicações do «impetus», dadas em épocas sucessivas por pensadores diferentes, desde Aristóteles a Buridan e Benedetti" (INHELDER, in PIAGET; GARCIA, 1987)

O desenvolvimento do conhecimento permite ao sujeito reconhecer as propriedades do objeto que são invariantes com relação às distintas situações cognitivas, das quais se derivam as possibilidades para superar o subjetivismo e alcançar uma maior objetividade do saber.

Karl Popper (1902-1994)

PopperPopper, austro-húngaro, doutorou-se em Psicologia mas é conhecido como filósofo da ciência.

Popper aconselhava o uso do método hipotético-dedutivo, o qual opera fazendo conjecturas teóricas audaciosas que seriam refutadas ou não pelos cientistas, através da experimentação.

Ficou famoso por defender o falsificacionismo (vide abaixo) como um critério de demarcação entre a ciência e a não-ciência.

Popper e o problema da indução

Conforme vimos sobre a Crítica ao Indutivismo na aula Racionalismo e Empirismo, o método indutivo é criticado justamente por seu 'salto indutivo' epistemologicamente injustificável do particular para o geral.

Como vimos nessa mesma aula, ao contrário do que propunha Bacon, nenhum número restrito de observações pode acarretar logicamente um enunciado irrestrito. Um milhão de evidências não provam uma teoria!

Popper argumentava que é possível derivar conclusões verdadeiras a partir de premissas falsas:

  • "Todo metal conduz eletricidade" (V);
  • "Grafite é metal" (F);
  • -> "Grafite conduz eletricidade" (V!)

Com isso, vê-se que não há 'retransmissão da verdade' das conclusões (observações) para as leis, isto é, observações verdadeiras não fazem necessariamente leis verdadeiras, contrariando o princípio da indução.

corvo pretoComo vimos sobre o Paradoxo do corvo, na aula Racionalismo e Empirismo, a afirmação "este corvo é preto" não implica em que "Todo corvo é preto"

Podem-se, na verdade, criar diferentes generalizações (leis) a partir de um mesmo conjunto de observações. Como vimos 

'Esta maçã é vermelha' tanto corrobora a 'lei' 'Todos os corvos são pretos', como a 'lei' 'Todos corvos são brancos'!

Falsificacionismo

Como vimos sobre os métodos dedutivo e indutivo, na aula Racionalismo e Empirismo,

Uma observação é enunciado singular (p) (particular);

Uma lei é um enunciado universal (P) (geral);

Na dedução, vamos de um universal para um singular (P->p);

Na indução, vamos de um singular para um universal (p->P), o que não é permitido pela Lógica.

Popper, de certa forma, resolveu o problema da indução, mencionado acima, invertendo o processo. 

Ele observou que, embora observações particulares (p) do tipo "este corvo é preto" não podem ser usadas para embasar a afirmação universal (P) "Todo corvo é preto", a observação singular (~p) "este corvo é branco" serve, ao contrário, para mostrar que a afirmação universal (~P) "Todo corvo é preto" é falsa, usando a conhecida regra inferencial chamada modus tollens

  • Se P implica p (P->p)
  • e p é falso (~p)
  • então, P é falso (~p->~P) (caso contrário, p teria de ser verdadeira)

Assim, segundo Popper, resultados podem apenas falsificar uma teoria, nunca prová-la.

Racionalismo crítico

Essa postura epistemológica Popper designou de Racionalismo Crítico, enfatizando sua rejeição tanto ao Racionalismo clássico quanto ao Empirismo-indutivista, já vistos na aula Racionalismo e Empirismo.

Segundo ela,

  • nenhuma quantidade de observações confirmatórias garantirá que uma teoria seja eternamente válida e imutável;
  • uma Teoria Científica é sempre conjetural e provisória, sendo válida, apenas, até ser refutada (falsificada);
  • para ser científica, uma teoria deve poder ser refutável (testável), em princípio;
  • uma afirmação não refutável é dogmática, não científica;
  • a 'Verdade' é inalcançável; apenas pretendemos nos aproximar dela, por tentativas!

Apesar deste último item, Popper distingue-se do Positivismo, embora se aproxime mais dele do que do Empirismo ou do Racionalismo.

É conhecido o comentário de Pauli sobre um trabalho:

"Ele não apenas não está certo, ele nem mesmo está errado!" (PEIERLS, 1960)

Por outro lado, esse princípio de falseabilidade, por vezes, encontra dificuldades, por exemplo, quando aplicado à Matemática.

Num exemplo conhecido, discute-se se e como a afirmação 2+2=4 poderia ser falsificável e, caso não possa, como poderia não ser científica? A solução de Popper é que, em Matemática pura, 2+2=4, mas, quando aplicada ao mundo real,  2 maçãs+2 maçãs=4 maçãs , esta é passível de ser falsificada experimentalmente.

Segundo essa concepção, o conhecimento progrediria, não pela verificação empírica indutiva da correção das teorias, como pregado pelo empirismo Baconiano, mas pela eliminação das teorias refutadas pela experimentação. As teorias falsificadas seriam substituídas por teorias com maior poder explanatório, isto é, seriam teorias que dessem conta também das observações que falsificaram as teorias anteriores.

Assim, por exemplo, 

  • a mecânica aristotélica explicava observações de situações cotidianas, mas foi falsificada pelos experimentos de Galileu e foi substituídos pela mecânica newtoniana, que deu conta do fenômeno observado por Galileu (e outros). A mecânica newtoniana explicava também o movimento observado dos planetas e a mecânica dos gases. 
  • a teoria ondulatória da luz de Young (ondas num éter luminífero) substituiu as 'partículas de luz' de Newton, mas, por sua vez, foi falsificada pelo experimento de Michelson-Morley e foi, também, substituída pela eletrodinâmica de Maxwell, a qual foi substituída pela relatividade especial de Einstein que levou em conta todos os fenômenos recém-observados. 
  • a mecânica newtoniana, aplicada à escala atômica, não podia fornecer uma resposta à catástrofe ultravioleta nem ao paradoxo de Gibbs, ou de como órbitas eletrônicas poderiam existir sem que os elétrons irradiassem sua energia em espiral em direção ao núcleo, e foi substituída pela mecânica quântica.

Assim, teorias concorrentes passam por um processo de eliminação de erros por falsificação – o que Popper via como um processo análogo à seleção natural na evolução biológica. As teorias que 'sobreviverem' a esse processo não são mais verdadeiras do que as outras, mas são as que se melhor se adaptam à situação empírica.

No entanto, ambas posturas (Baconismo e Racionalismo crítico) se servem das mesmas ferramentas: a consistência lógica e a conformidade com os fatos.

Popper - santos e pecadoresSegundo Gellner, colega de Popper, "a diferença entre os dois modelos situa-se apenas em saber se os fatos condenam os pecadores ou canonizam os santos." (GELLNER, 1987, p. 35)

"Para o jovem Popper havia alguns pecadores apropriadamente certificados, mas nunca santos definitivamente canonizados." (GELLNER, 1987, p. 35)

Ironicamente, essa exigência de refutabilidade em princípio deve se aplicar ao próprio Racionalismo Crítico, sob pena de ele deixar de ser científico. Mas isso faz com que eventualmente existam proposições a que a falseabilidade não se aplique!

"É difícil dizer o que é verdade, mas às vezes é fácil identificar a mentira." (Albert Einstein)

Popper e o 'método crítico'

Para Popper, conhecimento são conjeturas construídas, não apenas racionalmente mas incluindo até elementos metafísicos.

Whewell, em 1837, estabeleceu uma distinção entre os, assim denominados (MIGUEL; VIDEIRA, 2011), 

  • 'contexto da justificação', supostamente objetivo, lógico, racional, impessoal, a reconstrução idealmente lógica de hipóteses e teorias, descrevendo as estruturas conceituais, os enunciados e os aspectos normativos de verificação e aceitação seu valor de verdade e o exame de sua adequação em relação às evidências empíricas e seus testes, não-histórico e o único para ser estudado pela Epistemologia, e
  • 'contexto da descoberta', julgado como subjetivo, ilógico, não-racional, pessoalmente idiossincrático, estruturado de forma incompleta, historicamente real, descrevendo as origens históricas, o desenvolvimento psicológico e as condições sócio-político-econômicas, os aspectos factuais, o estágio inicial de invenção e construção de hipóteses e teorias, a ação da imaginação e da criatividade que constituem seu processo de gênese, e excluído da Epistemologia

Por outro lado, como vimos sobre o Papel do Experimento, na aula Realidade e Ciência, as observações são sempre impregnadas de teorias.

Hipóteses ad-hoc

No entanto, uma afirmação pode sempre ser ‘salva’ por hipóteses ad-hoc. Popper exemplificou dizendo que, ao saber que 'um corvo branco foi avistado na Austrália', alguém pode introduzir a hipótese ad-hoc de que 'todos os corvos são pretos, exceto aqueles encontrados na Austrália', ou ainda pode adotar uma postura mais cínica e afirmar que 'os observadores de pássaros australianos são incompetentes'.

Tal falseabilidade ingênua (de asserções menores, tais como leis) deveria fornecer, mas, infelizmente, não fornece uma maneira de lidar com hipóteses concorrentes para muitos assuntos controversos tais como, por exemplo, teorias de conspiração e lendas urbanas. Por um lado, quando confrontadas com o fato de que não há suporte teórico para uma dada observação, pode-se argumentar que não há nada para ser visto, que tudo está normal, ou que as diferenças ou as aparencimentos são muito poucos para serem estatisticamente significativas. Do outro lado, estão aquelas pessoas que admitem que uma observação realmente ocorreu e que uma declaração universal foi falsificada, como consequência. 

Popper - falseabilidade ingênuaPara os adeptos de teorias de conspiração, por exemplo, o governo afirmar repetidamente que não há provas da existência de discos voadores, para eles, é uma prova de que as as provas existem e que o governo as esconde.

Da mesma forma, vale lembrar o velho aforisma do cosmologista e astrofísico britânico Martin John Rees:

A ausência de evidência não é evidência de ausência!

Física Ondas - Ondas de rádio - Experimento de HertzAssim, por exemplo, somente em 1886 houve evidência empírica da existência das ondas de rádio, quando Hertz conseguiu produzí-las e detetá-las.
Física Ondas - Radiação eletromagnética - SolNo entanto, nos 4,5 bilhões de anos anteriores, o Sol já banhava a Terra com radiação eletromagnética, incluindo ondas de rádio, que antes de Hertz não eram detetadas.

É obvio que não se pode dizer que as ondas de rádio não existiam até 1886, uma vez que não havia evidência empírica para elas até então!

Popper - coelho da páscoaDa mesma forma, o fato de que não se pode provar que "Papai Noel/coelhinho da Páscoa/etc existem" não prova que eles não existam

Apesar disso, os céticos científicos recusam liminarmente fenômenos psíquicos, metafísicos, religiosos e dogmas (contrariando a própria idéia deles de não ter certeza absoluta a respeito de qualquer verdade), devido ao fato de ser impossível provar sua existência!

No entanto, mesmo se não se pode 'provar' alguma coisa, pode-se ter um 'razoável' grau de confiabilidade empírica na existência ou não de alguma coisa. Tudo depende do grau de confiabilidade empírica: 

Epistemologia - Argumento da inexistênciapode-se ter uma grande confiabilidade empírica na não existência de sorvete na geladeira
Epistemologia - Argumento da inexistênciamas, dado o tamanho do Universo, só se pode ter uma confiabilidade muito pequena de não existirem extraterrestres.

Pós-positivistasContinue conhecendo o Pós-positivismo.

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Citar esta página:
dos SANTOS, Renato P. . In Física Interessante. 17 Apr. 2017. Disponível em: <>. Acesso em: .

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