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12 - Diferentes Visões Epistemológicas
Pós-positivismo

Holismo epistemológico

Como vimos, a falsificação ingênua não permite que os cientistas, que dependem de critérios objetivos, apresentem uma falsificação definitiva das declarações universais (teorias).

Popper - Holismo epistemológicoAo contrário, os cientistas baseiam-se num 'holismo epistemológico', segundo o qual, as teorias e hipóteses científicas suportam-se mutuamente numa rede conceitual que as interliga, como num andaime, em que cada travessa individual contribui para a solidez do todo.
Popper - julgamento coletivo das teoriasDesta forma, uma teoria científica não pode ser testada isoladamente e nem refutada isoladamente por uma observação conflitante. Nas palavras de Quine, "as teorias enfrentam em conjunto o tribunal da experiência".
NetunoPor exemplo, na primeira metade do século 19, os astrônomos observavam a que trajetória do planeta Urano apresentava irregularidades, discrepâncias com relação à trajetória prevista pelas tabelas de Bouvard, calculadas segundo a Lei da Gravitação Universal de Newton.

Havia um número indeterminado de possíveis explicações para esse desvio, tais como

  • as tabelas de Bouvard estarem erradas por causa de erros de cálculo, ou
  • as observações telescópicas estream erradas por causa de algum fator desconhecido, ou 
  • as leis de Newton estarem erradas, ou
  • Deus mover planetas diferentes de formas diferentes, ou
  • etc.. 

Bouvard aventou a explicação de que um planeta desconhecido estaria afetando a trajetória de Urano e que a hipótese de que há sete planetas do nosso sistema solar é que era falsa

No entanto, essa explicação pareceu ousada demais para os astrônomos da época, os quais ou a rejeitaram ou deram menor importância, não se empenhando em procurar o suposto oitavo planeta.

Em 1846, o planeta interferente, o qual hoje conhecemos como planeta Netuno, foi encontrado por Galle e d'Arrest, a apenas 1° de distância da posição prevista pelos cálculos de Le Verrier.

Neste caso, foi confirmada a hipótese ad-hoc 'existe um oitavo planeta no sistema solar que causa as irregularidades na órbita de Urano' e, com isso, não apenas 'salvou' como deu mais força à Teoria da Gravitação Universal de Newton.

No entanto, Lakatos (vide abaixo) propos um interessante exemplo de excesso de hipóteses ad-hoc exatamente a partir de uma situação semelhante à do desvio da órbita de Urano:

"A história é sobre um caso imaginário de mau comportamento planetário. 

Um físico da era pré-einsteiniana utiliza a mecânica de Newton e a sua lei da gravitação, N, as condições iniciais aceites, I, e calcula, com a sua ajuda, a trajetória de um pequeno planeta recém descoberto p. Mas o planeta desvia-se da trajetória calculada. Será que o nosso físico newtoniano considera que o desvio era proibido pela teoria de Newton e, portanto, uma vez determinado, ele refuta a teoria N

Não. Ele sugere que deve existir um planeta até então desconhecido, p', que perturba a trajetória de p. Calcula a massa, a órbita, etc., deste planeta hipotético e depois pede a um astrônomo experimental que teste a sua hipótese. O planeta p' é tão pequeno que nem mesmo o melhor telescópio existente tem possibilidade de o observar. O astrônomo experimental requer uma verba de pesquisa para construir um maior ainda . Três anos depois, o novo telescópio fica pronto. Se o planeta desconhecido p' fosse descoberto, seria aclamado como uma nova vitória da ciência newtoniana. Mas o planeta p' não é descoberto. Será que o nosso cientista abandona a teoria de Newton e a sua hipótese de um planeta perturbador p'

Não. Desta vez, ele sugere que uma nuvem de poeira cósmica, n, nos oculta o planeta. Calcula a localização e as propriedades desta nuvem e requer um subsídio de investigação para enviar um satélite a testar os seus cálculos. Se os instrumentos do satélite, possivelmente novos, baseados numa teoria pouco testada, registrassem a existência da nuvem conjectural n, o resultado seria aclamado como uma vitória notável para a ciência newtoniana. Mas a nuvem n não é encontrada. Será que o nosso cientista abandona a teoria de Newton, juntamente com a ideia do planeta perturbador p' e da nuvem n que o oculta? 

Não. Sugere que há um campo magnético qualquer c nessa zona do universo que perturbou os instrumentos do satélite. Se o campo magnético c fosse encontrado, os newtonianos celebrariam uma vitória sensacional. Mas não é encontado. Será isto considerado como uma refutação da ciência newtoniana? 

Não. Ou se propõe ainda outra hipóteses auxiliar engenhosa ou... toda a história é enterrada nos volumes poeirentos dos periódicos e nunca mais é mencionada." (CHALMERS, 1993, p. 96-97)

Note-se, porém, que, no caso do planeta Mercúrio, cujo periélio  precessiona 43 segundos de arco por século, também foram propostas diversas hipóteses ad-hoc para salvar a Teoria Newtoniana:

  • a existência de um planeta dentro da órbita de Mercúrio, designado por Vulcano; 
  • a existência de um satélite de Mercúrio; 
  • erro na massa de Vênus até 10% maior; 
  • achatamento gravitacional no Sol
  • modificações na lei da gravidade, de modo que ela fosse proporcional a 1/d2 + ε, sendo ε um número pequeno.

No caso de Mercúrio, porém, nenhuma hipótese ad-hoc foi confirmada e somente a Teoria da Relatividade Geral de Einstein conseguiu explicar esse fenômeno em 1915. Desta forma, juntamente com mais um grande número de outras evidências, a Teoria Newtoniana foi considerada refutada.

Navalha de OccamCom isso, conclui-se que, em caso de uma observação discordante, os cientistas devem exercer bom senso para decidir qual parte do 'andaime' científico deve ser alterado, já que, em princípio, um conjunto suficiente de hipóteses ad-hoc permite 'salvar' qualquer teoria. Geralmente, é utilizado o critério de parcimônia, também denominado Navalha de Occam, usualmente expresso como

"Se em tudo o mais forem idênticas as várias explicações de um fenômeno, a mais simples é a melhor."

Ou seja, prefere-se a teoria que necessite de menos hipóteses ad-hoc.

Popper e as pseudociências

Uma teoria ser indutiva ou especulativa não é um bom critério de demarcação, pois

  • Pseudociências podem ser indutivas
  • Ciência pode ser especulativa

Critério de demarcação de Popper

Popper propos, como 'critério de demarcação', que Ciência é refutável e pseudociência, não.

No entanto, como veremos adiante, Bunge desenvolveu essa distinção, introduzindo outras categorias, além de ciência e pseudociência.

Exemplos de pseudociências, segundo Popper:

  • astrologia,
  • psicanálise,
  • materialismo histórico Marxista
  • Biologia de Lyssenko (foi obstáculo à entrada da na União Soviética)

Relação com o Ensino de Ciências

  • Quão realista é a proposta de 'Aprendizagem por Descoberta'?
  • Quanto do ensino de ciências não passa de uma pregação d’‘O Método Científico’?
  • E, também, não passa uma visão da Observação como fonte de conhecimento (Empirismo)?
  • Quanta ênfase na 'Objetividade', implicando num abandono da especulação, da intuição, da criatividade, partes intrinsecamente integrantes, como vimos, do processo de descoberta? 
  • Quantas leis vistas, não como construídas, mas descobertas na experimentação (visão empirista-realista)
  • Quantos roteiros de laboratório com ênfase empirista-indutivista?

Thomas Samuel Kuhn (1922-1996)

Thomas KuhnKuhn, norte-americano, doutorou-se em Física mas é mais conhecido como historiador e filósofo da Ciência.

Ficou famoso pelos conceitos de 'Revoluções Científicas' e 'paradigmas'.

Após doutorar-se em Física, por Harvard, Kuhn teve que preparar um curso de ciências para não cientistas e decidiu ilustrar o curso com exemplos históricos de progressos científicos.

Até então, tinha tido pouco contato com a Filosofia e a História, mas vislumbrou uma construção não-linear do conhecimento, com saltos, rupturas e substituições de paradigmas vigentes. 

Constatou que, numa perspectiva histórica, a Ciência é muito diferente da visão linear dos textos de física.

Kuhn e as ‘Revoluções Científicas’

Para Kuhn, as ‘Revoluções Científicas’ acontecem em três fases:

  • Fase pré-científica: pluralista, competição de paradigmas
  • Ciência normal: monista, exploração do paradigma
  • Revolução científica: crise no paradigma, substituição por paradigma alternativo (incomensurável), conversão, tradução
Kuhn - Revolução na Ciência

Paradigmas

Para Kunh,

"Um paradigma é o que os membros de uma comunidade científica compartilham. Reciprocamente, uma comunidade científica consiste de homens que compartilham um mesmo paradigma." (KUHN, 1970)

Isto sugere que científico não é uma questão de 'certo' ou 'errado', mas é aquilo que está de acordo com o paradigma vigente, isto é,  científico é aquilo que a comunidade dos cientistas diz que é científico.

Um paradigma é uma matriz disciplinar, um conjunto de leis, modelos, valores, aceites pela comunidade. Não é conhecimento rigoroso, é tácito, flexível e vai sendo melhor elaborado com o desenvolvimento da ciência que o reconhece.

Um paradigma inclui:

  • um modelo teórico,
  • o tipo de problemas que devem ser considerados,
  • as formas de solucioná-los e
  • os instrumentos que podem ser utilizados nas experiências.

Isso quer dizer que o paradigma exclui os problemas para o qual não se adapta!

A fase da Ciência normal

Kuhn - fase da Ciência normalNesta fase, o cientista trabalha como numa resolução de quebra-cabeças.

Parte-se do pressuposto de que se tem todas as peças do quebra-cabeças, isto é, de que os elementos do paradigma são suficientes para resolver todos os problemas definidos por ele.

Nesta fase, se algo não funciona (uma anomalia), em princípio, a culpa é do pesquisador, não do quebra-cabeças. Isto é, deve ser um erro de aplicação do paradigma.

A fase das Crises

Quando as anomalias se multiplicam, está-se na fase das crises.

No entanto, para ocorrer uma crise, é preciso

  • um acúmulo de anomalias (uma andorinha não faz verão e uma anomalia não faz uma crise)
  • um mudança na percepção da importância das anomalias (as anomalias precisam ser encaradas como anomalias)
  • o surgimento de um paradigma concorrente (se não há concorrente, 'o velho vai servindo')
Kuhn - Crises

É muito difícil que uma ciência abandone um paradigma sem já ter outro para substituí-lo.

Se um cientista decide, ainda que com boas razões, abandonar sua certeza sobre como é o mundo sem substituí-lo por nada, ele deixa de ser cientista.

Revolução científica

A Revolução científica acontece quando

  • uma crise no paradigma
  • causa sua substituição por um paradigma alternativo
  • que deve levar à 'conversão' dos cientistas ao novo paradigma
  • e, finalmente, à tradução do novo paradigma 

Mais do que um período de mudança de paradigmas, uma Revolução científica é uma mudança na maneira de olhar o mundo!

Mudança de paradigma

Kuhn - Mudança de paradigma

Quando se vê duma maneira (paradigma), não se consegue ver da outra!

Não se consegue ver o coelho e o pato ao mesmo tempo.

Revoluções nas Ciências

Kuhn - Revoluções nas Ciências

O papel dos Manuais

Para Kuhn, os manuais

"Referem-se a um corpo já articulado de problemas, dados e teorias e […] ao conjunto de particular de paradigmas aceito pela comunidade científica na época em que […] foram escritos. […] não é necessário que proporcionem informações autênticas a respeito ao modo pelo qual essas bases foram inicialmente reconhecidas e posteriormente adotadas pela profissão." (KUHN, 1970)

Os manuais tem, assim, a função de 'evangelizar' seus leitores no paradigma vigente.

Proposta de Ensino de Ciências

Pozo (1998) apresenta uma proposta de Ensino de Ciências que se assemelha à concepção de paradigmas e Revolução científica e consistiria em

  • conscientização do aluno de suas concepções alternativas (CA) (paradigma);
  • crítica às CA (crise);
  • apresentação da concepções científicas (CC) (tradução do paradigma concorrente);
  • promoção da CC e mudança conceitual da CA para a CC(conversão).
No entanto, já se desistiu dessa proposta de conflitos cognitivos para causar mudanças conceituais porque, na verdade, elas não ocorrem. (MOREIRA; GRECA, 2003; MORTIMER, 1995). 
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Citar esta página:
dos SANTOS, Renato P. . In Física Interessante. 4 Aug. 2014. Disponível em: <>. Acesso em: .

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