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História da Física
O Currículo Oculto

Andrew Ure (1778-1857), professor da Universidade de Glasgow e entusiasta da Revolução Industrial analisava

"Pela deficiência da natureza humana, sucede que, quanto mais hábil o operário, mais determinado e intratável ele se torna, e, naturalmente, menos apto a ser um componente de um sistema mecânico." (URE, 1835, p. 20)

Para Ure, a dificuldade residiria

"[...] no treinamento de seres humanos para que renunciem aos seus hábitos inconstantes de trabalho e identifiquem-se com a invariável regularidade do complexo autômato. [...] Descobriu-se ser quase impossível converter pessoas que já passaram a puberdade, independentemente de serem oriundos de ocupações rurais ou artesanais, em mãos úteis para a fábrica" (URE, 1835, p. 15)

Na interpretação de Toffler, eram precisas crianças adaptadas a um

" [...] trabalho repetitivo, portas adentro, a um mundo de fumo, barulho, máquinas, vida em ambientes superpovoados e disciplina colectiva, a um mundo em que o tempo, em vez de regulado pelo ciclo sol-lua, seria regido pelo apito da fábrica e pelo relógio." (TOFFLER, 1970, p. 393)

O trabalho da fábrica exigia trabalhadores, especialmente operários da linha de montagem, que se apresentassem na hora, que aceitassem ordens da hierarquia de gerência, sem objeções, e dispostos a se escravizarem a máquinas ou a escritórios realizando operações brutalmente repetitivas. (TOFFLER, 1993, p. 42-43)

Mas o próprio sistema industrial resolveu seu problema.

"A solução só podia ser um sistema educacional que, na sua própria estrutura, simulasse esse mundo novo." (TOFFLER, 1970, p. 393).

"Introduziram em seus estabelecimentos escolas infantis, sob os cuidados de jovens do sexo feminino com hábitos de qualidade superior." (URE, 1835, p. 423)

"O mais extraordinário grau de atenção é dedicado à educação dos filhos dos trabalhadores, candidatos para admissão ao trabalho nas fábricas. Eles são ensinados leitura, escrita, com os elementos da geografia, música, dança, história natural, etc." (URE, 1835, p. 390)

No entanto, vale a pena observar que

"Este era o curriculum aberto. Mas por debaixo dele escondia-se um curriculum encoberto, invisível, que era muito mais básico. Consistia este – e consiste na maioria das nações industriais – em três cursos: um de pontualidade, um de obediência e um de trabalho maquinal repetitivo." (TOFFLER, 1993, p. 42)

"Nesses seminários asseguram-se que as crianças aprendem a ser obedientes e ordeiras e a restringirem suas emoções." (URE, 1835, p. 423)

Na verdade,

"Para os futuros empregadores, e para a sociedade que segrega a escola em geral, esse currículo oculto é que constitui, no fim de contas, o essencial." (TOFFLER, 1993, p. 42)

Como resultado, compreensivelmente,

"Os fiandeiros preferem sempre as crianças que tenham sido educadas em uma escola infantil, uma vez que são mais obedientes e dóceis." (URE, 1835, p. 423)

Antes da escola de massas, todos os alunos partilhavam o mesmo espaço mas se agrupavam em pequenos grupos em estações de trabalho, guiados por um monitor, sendo, por isso, conhecido por ensino monitorial. O monitor chamava cada aluno individualmente para ser ouvido ou para lhe explicar a matéria, enquanto que os restantes se ocupavam de outras tarefas de aprendizagemo. (FINO, 2008)

Ensino monitorial
Fonte: Paul Monroe, A Cyclopedia of Education, New York, Macmillan, 1913, citado em Robert Owen and New Lanark. Disponível aqui.

Posteriormente, os Irmãos das Escolas Cristãs, em França, formularam o chamado método da instrução simultânea, em que o mestre ensina a mesma matéria a todos os alunos ao mesmo tempo (FINO, 2008). Este sistema vem a ser o que ainda está em uso até hoje, um século depois.

Ensino Simultâneo
Fonte: Paul Monroe, A Cyclopedia of Education, New York, Macmillan, 1913, citado em Robert Owen and New Lanark. Disponível aqui.

Essa escola lembrava muito o ambiente de uma fábrica.

Tecelagem

A comparação é cruel:

"a ideia geral de reunir multidões de estudantes (matéria-prima) destinados a ser processados por professores (operários) numa escola central (fábrica), foi uma demonstração de génio industrial." (TOFFLER, 1970, p. 393)

Infelizmente, a estrutura atual das nossas escolas ainda reflete esse modelo.

"A desconexão entre a forma como os estudantes aprendem e a forma como os professores ensinam é fácil de compreender quando consideramos que o sistema escolar atual foi projetado para um mundo agrário e de manufatura." (JUKES & DOSAJ, 2003)

Nossos alunos são acostumados a assimilar informação picada em pequenos pedaços (disciplinas e capítulos e seções de livros-texto) e repetidos à exaustão nos exercícios de fim de capítulos, em total concordância com o princípio industrial da divisão do trabalho.

Tal como era alienante o trabalho repetitivo da indústria, também é alienante este 'ensino' conteudista, defasado da realidade fora das paredes da escola, onde, aliás, o aluno passa a maior parte do seu tempo.

Desculpem-me mas eu não consigo acreditar em reformas educacionais que mudam a grelha das disciplinas mas mantém a própria idéia industrial de disciplinas; que mudam os objetivos de 'conteúdos' para 'competências e habilidades' mas mantém a estrutura industrial de salas de aula, horários de entrada e saída e ensino obrigatoriamente presencial; que introduzem a tão incensada 'educação a distância' mas desperdiçam todo o arsenal tecnológico hoje disponível e a resumem ao envio de arquivos de texto para serem passivamente lidos pelos alunos.

Uma ressalva: estou questionando a estrutura industrial do nosso sistema de educacional. Não a estou identificando com qualquer ideologia liberal, capitalista ou neo-liberal, como outros autores 'críticos' fazem. Outras ideologias utilizam a mesma estrutura para o mesmo propósito!

Peter Drucker, embora não seja um educador, advertiu em 1997, lá no fim do século passado:

"As Universidades não vão sobreviver. O futuro da educação está fora do campus tradicional, fora da sala de aula tradicional."

Ian Jukes, em seu blog Commited Sardines (sardinhas comprometidas), compara o sistema escolar atual com uma baleia azul: é grande e pesada e demora muito para mudar de direção.

Em contraste, o mundo à volta da escola muda muito e muito rapidamente: o Muro de Berlin caiu, as Torres Gêmeas caíram, países surgem e desaparecem do mapa todos os anos, a celebridade de hoje é esquecida amanhã. O ritmo é acelerado. Enquanto os jovens nasceram com a mudança acelerada, que lhes parece natural, seus professores sonham com a volta da calmaria dos "bons velhos tempos". Os professores exigem que seus alunos decorem informações desconexas, tais como nomes de rios e de capitais, que estes sabem que está disponível a qualquer instante pelo Google!

Jack Welch disse que 

"Quando a mudança no exterior ultrapassa a mudança no interior ... o fim está chegando!"

Será que está chegando o fim da escola como a conhecemos hoje?

Continuando a comparação de Ian Jukes, em seu blog Commited Sardines, um cardume de sardinhas pesa tanto ou mais do que uma baleia azul. Mas um pequeno grupo de sardinhas (as tais comprometidas do nome do blog) é suficiente para mudar a direção de todo o cardume quase instantaneamente.

Comece a mudança por você mesmo. Não vale a pena ficar esperando que a grande baleia azul mude de rumo - ela não vai mudar. Se quer mudar, seja uma sardinha comprometida.

E se acha que uma andorinha não faz verão, vale a pena lembrar a antropóloga Margaret Mead:

"Nunca duvide de que um pequeno grupo de pessoas comprometidas pode mudar o mundo - na verdade, é a única coisa que alguma vez já o mudou."

Referências

  • DRUCKER, Peter. I got my degree through E-mail. Forbes, June 16, 1997. Disponível aqui. Acesso: 23 set. 2008.
  • FINO, Carlos Nogueira. O Paradigma Fabril segundo Toffler e Gimeno Sacristán. In: Fino Carlos Nogueira. (2000). Novas tecnologias, cognição e cultura: um estudo no primeiro ciclo do ensino básico. (tese de Doutoramento). Lisboa: Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa (pp. 27-31). Disponível aqui. Acesso: 9 set. 2008.
  • JUKES, Ian & DOSAJ, Anita. The Disconnect. In Apple Digital tools for digital students website. February, 2003. Disponível aqui. Acesso: 23 set. 2008. 
  • TOFFLER, Alvin. O Choque do futuro. Lisboa: Edição Livros do Brasil, 1970. Disponível aqui. Acesso: 23 set. 2008.
  • TOFFLER, Alvin. A terceira onda. Rio de Janeiro: Record, 1993. Disponível aqui. Acesso: 23 set. 2008.
  • URE, Andrew. The Philosophy of Manufactures, or an Exposition of the Scientific, Moral and Commercial Economy of the Factory System of Great Britain. 1835. Disponível aqui. Acesso: 9 set. 2008.

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