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5 - Historia da Epistemologia

Magia e Ciência

Há que lembrar que a busca pelo conhecimento e pelo domínio da Natureza começou com a Magia, na Pré-história

Pensamento mágico

Segundo o pensamento mágico, o Universo seria regido por entidades sobrenaturais.

deuses olímpicos

A Mitologia é uma explicação do Universo, da criação do mundo, dos fenômenos da Natureza, etc., através dos mitos, que são narrativas envolvendo heróis sobrenaturais, criaturas malévolas e deuses. Desta forma, é precursora das teorias científicas.

O Homem acreditava que tinha de invocar o favor dessas entidades para obter o que necessitava para sua sobrevivência.

invocação

Por outro lado, no pensamento mágico, há, também, a visão de que todos os objetos, elementos e seres da Natureza são entidades vivas, com sentimentos, emoções, vontades, etc.; é o que se chama de animismo. Vale lembrar, por exemplo, que todos os objetos mágicos das histórias de Harry Potter tem algum tipo de consciência e inteligência própria, tais como o cálice de fogo, o chapéu selecionador , o xadrez de bruxo, o pomo de ouro (golden snitch) do jogo de quadribol, etc.

Harry Potter - chapéu seletor

De uma forma simples, então, a Magia consiste em um conjunto de ‘técnicas’ para manipular as forças da Natureza, através do poder mental do mágico e do favor dessas entidades.

mito Jasão

Desta forma, a Magia é precursora da prática experimental científica.

Primeiras Observações do Céu

Stonehenge
Stonehenge
Stonehenge

Os antigos já conheciam os 'movimentos' das estrelas:

  • diário
  • anual

Conheciam, também, as periodicidades nas estações. A palavra 'canícula' designa uma estação de temperaturas muito altas, deriva do nome latino, canicula (pequeno cão), da estrela Sírius, da constelação do Cão menor, que marcava o início do verão.

Sírius

importância maior no Neolítico

  • antes: ajuda à orientação- nomadismo
  • depois: previsão das estações - agricultura

Astrologia

Tal como a Matemática, a Astrologia tinha função utilitária.

  • orientava a semeadura na agricultura
  • orientava o corte de cabelo, em analogia com a agricultura
  • fazia previsões sobre o clima
  • fazia previsão das características de uma pessoa
  • fazia previsão do futuro
  • era utilizada para marcar eventos importantes, tais como casamentos, coroações, etc.
Astrologia

Conhecimento é poder

O conhecimento era restrito às elites: sacerdotes, militares, ‘conselheiros’, etc.

Era, em geral, privilégio das classes sacerdotais que, por um lado, sustentavam o Rei, prevenindo-o de perigos, desastres, más colheitas, etc. e, em contrapartida, eram sustentadas economicamente por ele.

Essas classes deviam possuir não só o conhecimento dos rituais adequados, mas também o conhecimento ‘científico’ necessário para sua função, tal como a previsão de eclipses, eventos extremamente perturbadores para as populações da época, por se constituirem alterações radicais na Machina mundi.

Astrologia previsão de Eclipses

Assim, tal como vimos anteriormente que Tales fez séculos antes, Cristóvão Colombo, durante sua quarta viagem, em 1504, sabendo de um eclipse lunar próximo, intimidou os nativos jamaicanos com o 'desaparecimento' da Lua, caso não lhe fornecem provisões.

Cristóvão Colombo e o eclipse

O bandeirante Bartolomeu Bueno da Silva no antigo Goiás, pôs fogo numa tigela contendo 'água' (na verdade, aguardente) ameaçando incendiar todos rios e fontes se os índios não revelassem o local de onde retiravam o ouro, sendo por isso, apelidado 'Anhangüera' (alma velha ou diabo velho).

Bandeirante Anhangüera

Segundo a narrativa bíblica, Moisés

  • possuía uma vara que se transformava em serpente
  • transformou água em sangue
  • invocou uma praga de gafanhotos
  • separou as águas do Mar Vermelho
  • etc.
Moisés e a transformação das cobras

"A História mostra que o mago sempre se criou a si próprio e que o tolo o confirmou no papel.” (Giordano Bruno)

Magia simpática

Por outro lado, a chamada Magia simpática baseia-se na teoria das ‘assinaturas’ ou das 'correspondências', a ideia de que algum tipo de semelhança ou analogia entre o objeto e seu efeito.

Assim, por exemplo:

  • beterraba é 'bom' para o sangue porque é da cor do sangue;
  • chá de boldo é 'bom' para o fígado porque é amargo como a fel do fígado;
  • nozes são boas para o cérebro porque se parece com ele;
  • pó de chifres são afrodisíacos por semelhança do chifre com o órgão masculino;
  • um amuleto contendo um olho de gato daria a seu portador uma visão noturna como a dos gatos;
  • rasgar ou perfurar a foto de alguém causaria mal a essa pessoa;
  • etc. 

As bonecas de 'vodu' (uma prática, na verdade, encontrada em costumes tanto da Europa como da África) são um tipo de magia simpática.

Vodu

A Astrologia também relacionava partes do corpo com signos astrológicos, por analogia.

Astrologia

Alquimia

A Alquimia também se baseia, em parte, nesse pensamento de semelhança. Por exemplo, relaciona metais com planetas, por semelhança:

  • o ouro, o mais ‘puro’, o ‘rei’ dos metais, era assimilado ao Sol, astro-rei;
  • a prata era assimilada à Lua, pela sua cor;
  • o ferro, utilizado nas armas, era associado a Marte, o planeta do deus da guerra;
  • etc.
Newton - Alquimia

Da mesma forma, embora não tenha conseguido produzir o ouro, a Alquimia considerava conferir a cor dourada a um metal como o mesmo que transformá-lo em ouro.

A Pedra filosofal transmutaria os metais 'inferiores' em ouro pela retirada de suas 'impurezas'. Da mesma forma, regeneraria espiritualmente o alquimista, retirando suas 'impurezas de alma'. Além disso, podia ser utilizada para produzir um 'elixir da longa vida' que funcionaria eliminando as doenças, vistas, também, como uma forma de 'impureza'.

Newton - Alquimia - Pedra filosofal

Do que foi visto até aqui, tanto a Magia quanto a Ciência podem ser empíricas e baseiam-se em tentativas e erros

No entanto,

  • a Magia apóia-se em dogmas e autoridades, é tradicional (quanto mais velha a fonte, mais relevante)
  • a Ciência apóia-se em teorias e princípios (provisórios), renova-se

Mitos

Todas as culturas possuem ou possuíram seus mitos cosmogônicos, descrições mitológicas, narrativas simbólicas e religiosas, da criação do mundo e da origem da vida.

Cosmogonia Babilônica

Os babilônicos acreditavam que o mundo era semi-esférico e sustentado por elefantes que se apoiavam sobre uma gigantesca tartaruga.

Mito - Elefantes sobre uma tartaruga

Cosmogonia Hindu

Os Hindus acreditavam que o deus Brahman teria tido um sonho em que gotículas saíam do seu corpo, cresciam, transformando-se e evoluindo no cosmo, nas galáxias, nos planetas, nos homens, nos animais, toda a Natureza.

o sonho de Vishnu

Cosmogonia Órfica

Os Órficos acreditavam que o mundo teria sido criado a partir de um ovo primordial

"Ó Poderoso primordial (Protogonos), ouve minha oração, duplo, nascido de ovo e vagueando através do ar,
Rugindo glorioso em Suas asas douradas, de quem as raças dos Deuses e dos mortais provêm. Ericapæus de celebrado poder, inefável, oculto, toda brilhante flor. Obscuro aos olhos, Tu eliminas a obscuridade da noite, esplendor que tudo penetra, pura e santa luz
Por isso chamado Fanes (Eros), a glória do céu, em ondulantes asas pelo mundo tu voas.
Príapo, esplendor de olhos negros, a Ti eu canto, gentil, todo prudência, sempre abençoado rei,
Com alegre face em nosso direito divino e santo sacrifício propício brilha.
" (Hino órfico a Protogonus)

Os Órficos explicavam as estações do ano contando que Eurídice, amada de Orfeu, o melhor músico vivo, foi raptada por Hades, deus dos infernos. Ele partiu em busca dela e, com sua música, venceu todos os perigos até convencer Hades a deixá-la voltar ao mundo dos vivos, com a condição de ir à frente e não olhar para trás até chegar em casa. Orfeu não resistiu, a olhou e a perdeu novamente. Finalmente, Hades concordou em deixá-la seis meses sobre a terra (trazendo o verão e a primavera) e seis meses sob ela (outono e inverno).

Mito órfico Perséfone

Eurínome e Ofião (vento norte)

"No começo, no imenso caos do mundo, vivia solitária a bela e poderosa deusa Eurínome. Ela adorava dançar mas, não tendo uma base para apoiar seus pés, acabou por separar o céu do mar. Assim, começou a saltar e dançar por sobre as ondas que criara até que encontrou, do lado norte do mundo, um vento forte. Eurínome gostou do vento. Achou o seu frescor agradável e decidiu começar por ele a obra da criação. Apanhou, então, o fluido companheiro e, com as mãos enérgicas, esfregou-o até que se tornasse sólido. O vento se transformou em uma serpente, Ofião, que se estendeu aos pés de sua criadora. Com frio, Eurínome voltou a dançar para se aquecer. Ao vê-la dançando, a serpente se apaixonou pela deusa e uniu-se a ela para gerar todas as coisas que hoje existem. Ela, então, transformou-se em pomba, sentou-se sobre as águas do mar e pôs um ovo, que continha a natureza. Então, Ofião enrolou-se sete vezes ao redor do ovo para chocá-lo. Quando a casca rompeu saíram o Sol, a Lua, os planetas, os outros astros, a Terra, com suas montanhas e rios, as árvores, plantas, animais e os homens"

Mito órfico da serpente e o ovo

Cosmogonia Grega

À semelhança dos egípcios, os gregos acreditavam que tudo surgiu da cobertura de Ouranos (céu) sobre Gaia (Terra):

"Primeiro que tudo surgiu o Caos
E depois Gaia, de amplo peito
Para sempre firme alicerce de todas as coisas
E o brumoso Tártaro num recesso da Terra de largos caminhos
E Eros, o mais belo de entre os deuses imortais
Que amolece os membros
E, no peito de todos os deuses e de todos os homens,
    domina o espírito e a vontade ponderada.
Do Caos nasceu o Érebro e a negra Noite
Da noite, por sua vez, nasceu o Éter e o Dia
Que ela concebeu e deu à luz, depois da sua ligação amorosa com Érebro.
E Gaia gerou primeiro Urano (o céu) constelado, igual a ela própria
Para a cobrir em toda a volta
E para ser eternamente a morada segura dos deuses bem-aventurados
Deu à luz, em seguida, às altas montanhas
Retiros aprazíveis das ninfas divinas
Que habitam as montanhas arborizadas
Também deu à luz o mar estéril
Que agita com as suas vagas, o Ponto, seu deleitoso amor.
E seguidamente, tendo partilhado o leito com Urano,
Gerou o oceano dos redemoinhos profundos,
E Coio e Crio e Hipérion e Jápeto…
" (Hesíodo, Teogonia, 116-130)

Mito egípcio Nut e Geb

Cosmogonia de Enuma Elish

O Enuma elish, mito da criação babilônico descreve o surgimento do Universo a partir de um caos úmido:

"Quando no alto o céu não era ainda nomeado, nem em baixo a terra tinha nome, Apsu, o primordial, de quem nascerão os deuses, e Tiamat, a genitriz, que os parirá todos, misturaram em um só todas as suas águas, mas não tinham formado as pastagens, nem descobertos os canaviais, quando nenhum dos deuses ainda aparecera, nem era dotado de nome nem provido de destino, então, de seu seio, os deuses foram criados." (Enuma elish, tablete 1)

Cosmogonia de Hermes

Hermes TrismegistusHermes Trismegistus, correspondente neoplatônico ao deus egípcio Thoth, descrevia a formação do mundo a partir de trevas úmidas:

"Subitamente, tudo se abriu diante de mim num momento, e tive uma visão sem limites, tudo tornou-se luz, serena e alegre, e ao vê-la apaixonei-me por ela. E pouco depois surgiu uma obscuridade dirigindo-se para baixo, em sua natureza assustadora e sombria, enrolando-se em espirais tortuosas, como uma serpente, foi assim que a percebi. Depois esta obscuridade transformou-se numa espécie de natureza úmida, agitada de uma maneira indizível e exalando um vapor, como o que sai do fogo e produzindo uma espécie de som, um gemido indescritível. Depois lançando um grito de apelo, sem articulação, tal que o comparei a uma voz de fogo, e ainda que saindo da luz auto-existente; um Verbo santo veio cobrir a Natureza, e um fogo sem mistura exalta-se da natureza úmida em direção à região sublime, era leve, vivo e ativo ao mesmo tempo; e o ar, sendo leve, seguia ao sopro ígneo elevando-se ao fogo, a partir da terra e da água, de forma a parecer preso ao fogo; pela terra e pela água, permaneciam no mesmo lugar, se bem que não se percebesse a terra separada da água: estavam continuamente em movimento sob a ação do sopro do Verbo que colocara-se sobre elas, segundo percebia minha audição." (Poimandres, 4)

Não por coincidência, o Velho Testamento descreve a criação do mundo a partir de 'águas primordiais':

"A terra estava informe e vazia; as trevas cobriam o abismo e o Espírito de Deus pairava sobre as águas." (Gênesis 1,2)

Mito - Criação
PlatãoPor sua vez, Platão, que veremos adiante, no livro Timeu, descreve uma cosmogonia, em que um Universo esférico é criado por uma divindade, a partir dos quatro elementos aristotélicos (ar, fogo, água e terra), cujos átomos têm formas distintas, e ordenado segundo a proporção áurea.
Platão Timeu

Mitos modernos

Gottschall (2004) alerta que ainda hoje vivemos sob a influência de mitos, tais como:

  • a Ciência é boa (mau é seu uso);
  • a Ciência é neutra;
  • o cientista é objetivo;
  • a comunidade científica busca apenas o progresso;
  • a Ciência possui um critério absoluto de verdade;
  • a Ciência é afastada de sentimentos (amor, paixão, ciúmes, crenças, dúvidas);
  • a Ciência é linear e cumulativa;
  • etc.

Ao que, Martins (2003) comenta:

Ao contrário do que se costuma pensar, a ciência não é desenvolvida por “anjos” que tomam decisões racionais baseadas na análise de fatos e de argumentos teóricos.

Os pesquisadores são movidos por interesses muito humanos, como vaidade, luta pelo poder, necessidades econômicas e vínculos sociais.


Veja também este vídeo

Lendas da Ciência
Quando e onde surgiu a Ciência


História da Epistemologia - Parte 3Continue a conhecer a História do Pensamento.

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Citar esta página:
dos SANTOS, Renato P. . In Física Interessante. 4 Aug. 2014. Disponível em: <>. Acesso em: .

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