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4 - O Vê Epistemológico
de Gowin

O que é isso de 'Vê Epistemológico'?

O instrumento chamado Vê Epistemológico de Gowin foi criado por D. Bob Gowin em 1977. É um instrumento 'metacognitivo', tal como os mapas conceituais.

Gowin constatou que os alunos saíam das aulas experimentais sem entender o que haviam feito:

  • não compreendiam o porquê do protocolo experimental,
  • obtinham resultados que não sabiam explicar.

Por isso, ele desenvolveu o Vê para ajudar os estudantes (e professores!) a compreender:

  • a natureza e os objetivos do trabalho experimental em Ciências e
  • a estrutura e o processo de construção do conhecimento.

Estrutura do Vê

O Vê é dividido em quatro regiões:

  1. no vértice, vão os eventos, os acontecimentos ou fenômenos que estamos estudando
  2. no alto da abertura, vai a pergunta de pesquisa, a pergunta que nos fazemos sobre os eventos
  3. no ramo esquerdo, fica o marco teórico, a visão de mundo, filosofias, teorias e modelos, princípios e conceitos que permitiram formular a pergunta e que dá sentido à experimentação que empreendemos
  4. no ramo direito, vai todo o processo metodológico: registros, transformação dos dados e  juízos cognitivos, bem como juízos de valor acerca da pesquisa
Vê de Gowin

Construção do Conhecimento

  • os Problemas de pesquisa determinam os objetos/acontecimentos em estudo
  • as Visões de mundo, filosofias e as teorias definem o viés da pesquisa. lembre-se que não há ciência liberta de convicções prévias, a ciência não é 'neutra'! 

O pensamento de quem constrói ciência está 'contaminado', para o melhor e para o pior. Alguns exemplos famosos:

  • o Pitagorismo de Kepler,
  • a heliolatria de Copérnico,
  • o platonismo de Galileu,
  • o empiriocriticismo de Mach,
  • o realismo de Einstein, Schrödinger e de Broglie,
  • o neopositivismo da Escola de Copenhague, etc., 
  • os Princípios da teoria são afirmações sintéticas e a priori, afirmações convencionais, criações livres do espírito humano; etc.

Os princípios sempre foram questionados. São o produto de juízos cognitivos e de valor de investigações anteriores;

  • os Conceitos definem o que se vê no fenômeno, e daqueles extraem registros e destes, os fatos
Note, porém, que os investigadores sempre 'viram' os fenômenos e os objetos com os sentidos e mentes cheias de conceitos e teorias, enredados de um modo tão complexo quanto idiossincrático.
  • os Registros, convertidos mentalmente em fatos, são transformados de modo a formular juízos cognitivos em resposta aos problemas em estudo, mas deixando sempre a porta aberta para novos problemas e novas investigações

Relaçoes entre os elementos

O Vê de Gowin

Algumas relações entre esses elementos que se podem indicar são:

  • A visão de mundo e a epistemologia do pesquisador, condicionam as teorias que ele vai escolher e, esses elementos juntos vão influenciar nas perguntas de pesquisa que podem ocorrem à sua mente;
  • A pergunta de pesquisa vai definir o evento que vai ser construído para produzir sua resposta;
  • Os dados a serem recolhidos dependem das teorias, princípios e leis incluídos no referencial teórico;
  • Por sua vez, os dados a ser observados têm de aparecer como conceitos, definidos no lado esquerdo do vê, isto é, devem ser conceituados no referencial teórico;
  • Os dados deverão ser transformados e analisados por técnicas  coerentes com a epistemologia e as teorias e, por isso, essas técnicas devem estar bem definidas no referencial teórico;
  • Os juízos cognitivos obtidos como conclusões a partir das análises dos dados devem responder à pergunta de pesquisa seja afirmativamente ou negativamente;
  • O juízo de valor deve ser coerente com a visão de mundo e epistemologia do pesquisador.

O Vê de Gowin e o Projeto

A estrutura de um projeto pode se relacionar com a do Vê de Gowin:

O Vê de Gowin e o Projeto
  • O Título pode conter palavras que remetam ao Evento objeto do estudo e às Teorias a serem utilizadas no estudo;
  • O Resumo deve obrigatoriamente descrever resumidamente o Evento e as Teorias a serem utilizadas;
  • Os principais Conceitos devem aparecer como Palavras-chave (veja abaixo);
  • Filosofia e a visão de mundo que estiveram por trás do estudo deve ser apresentada na Introdução do trabalho.

Um projeto ou qualquer trabalho acadêmico vai passar por uma avaliação. No entanto, os avaliadores geralmente estão assoberbados de trabalho e essa avaliação poderá ser feita de forma apressada e, às vezes, injusta.

Uma maneira de aumentar as chances de um julgamento favorável - para além da qualidade intrínseca do trabalho - é tentar que essa avaliação seja menos apressada e isso pode ser conseguido ao se despertar o interesse do avaliador. 

Há que se fazer o trabalho se vender bem ao avaliador, através de 'anzóis', tal como se faz numa peça publicitária.

1. O primeiro anzol é o Título. Um título não apenas apropriado mas original desperta a atenção e curiosidade do avaliador. Não será apenas 'mais um trabalho' a avaliar.  

2. O segundo anzol é o Resumo. O Resumo é, depois do título, a próxima coisa a ser lida. Muitas vezes decidimos a compra de um livro pelo resumo. O mesmo sucede com o avaliador. Um resumo não só completo e bem estruturado, mas escrito de forma aliciante 'seduz' o avaliador para continuar lendo o trabalho.

3. O terceiro anzol é a Introdução. Como o nome diz, aqui é que o avaliador vai ser 'apresentado' às idéias e à proposta do projeto. Imagine que desagradável é estar numa festa em que não conhece ninguém. Se você tivesse sido apresentado logo na entrada a algumas pessoas com interesses comuns, sua presença na festa seria muito mais agradável. 

Introdução

Cabe, portanto, ao autor, como bom afitrião, fazer uma boa apresentação ao leitor, para que nenhum ponto importante fique desconhecido; para que ele saiba que trabalho é esse, de onde vem, o que pretende, etc.

É evidente que, sendo o 1º anzol, o título deve ser aliciante e não algo pedante e rebuscado que desencoraje o possível leitor, tal como o do Calvin, na figura abaixo. 

Calvin e a escolha de um título impressionante

Segundo Lichtfouse, os melhores títulos enfatizam a novidade, o valor acrescentado ou o que o artigo acrescenta ao conhecimento corrente: 'Nova...', 'Um inesperado...', 'Evidência de...', 'Uma alternativa ao...' (LICHTFOUSE, 2013, p. 11).

Da mesma forma, sendo o 2º anzol, o resumo deve continuar o trabalho de 'seduzir' o avaliador para continuar lendo o trabalho.

Segundo Lichtfouse, 

O resumo não deve ser nem curto nem comprido demais. Também não deve simplesmente expor os resultados. Ele deve sumarizar todo o trabalho, incluindo o contexto, as questões gerais e específicas e as hipóteses em três ou quatro sentenças, bem como todo o experimento em no máximo mais quatro sentenças. Finalmente, deve em cinco ou seis sentenças incluir um resultado principal e dois de suporte, bem como justificar sua novidade e explicar suas implicações e benefícios” (LICHTFOUSE, 2013, p. 19).

O resumo começa com três ou quatro sentenças que sumarizam o problema, as questões gerais e os desafios específicos. a introdução começa discutindo esses pontos em detalhe e termina com a hipótese, a qual deve se propor a solucionar o problema descrito. O problema é brevemente recapitulado em duas ou três sentenças no começo da seção de análise de resultados; subseções desta seção devem descrever os resultados individuais encontrados e terminar com uma análise do significado, da novidade e dos benefícios do resultado encontrado, o qual deve corresponder ao problema inicial. Estes elementos são repetidos ao fim do Resumo e são novamente repetidos no fim da conclusão, a qual começa com uma breve revisão do problema a ser resolvido, por forma a destacar o valor acrescentado do resultado” (LICHTFOUSE, 2013, p. 23, Fig. 9).

Lichtfouse - Estrutura do Resumo

Na próxima parte, discutiremos em mais detalhe como construir um título e um resumo adequados, em função das palavras-chave.

Continuando com a relação da estrutura de um projeto com a do Vê de Gowin,

O Vê de Gowin e o Projeto
  • A Pergunta de Pesquisa vai dar origem ao Problema, que é o porquê da pesquisa;
  • A Teoria vai influenciar na formulação da Hipótese, que é uma possível resposta à pergunta;
  • A Filosofia vai influenciar na escolha dos Objetivos que vão definir para quê a pesquisa vai ser feita, além de simplesmente responder à Pergunta;
  • A Teoria, os Princípios e Leis e os Conceitos, como já dito, vão se incorporar na Fundamentação Teórica, a qual vai explicitar quem garante a qualidade da pesquisa, quem são os autores que lhe dão o respaldo científico.
O Vê de Gowin e o Projeto
  • A Metodologia é onde se descreve como vai ser desenvolvido e em que consistirá o Evento, quais Dados serão observados e como será feita sua Análise. Como já foi dito antes, essa análise deve ter sido embasada teoricamente na Fundamentação (quem garante que essa análise se pode fazer assim?);
  • O Cronograma, naturalmente, é quando a pesquisa vai ser realizada;
  • O Orçamento, se for o caso disso, é quanto a pesquisa vai custar ao órgão financiador; e
  • As Referências são as indicações, bibliográficas ou não, dos autores e obras citados.

Durante a formulação do projeto de pesquisa, algumas perguntas relevantes são:

  • Qual é a pergunta determinante/situação que deve ser superada ou relação entre a situação a superar e a proposta de mudança? Por exemplo, considerando sua prática pedagógica, qual é um problema desafiante para você?
  • Qual é o questionamento, que é parte da sua ação reflexiva, que implica a construção e/ou modificação do conhecimento. Por exemplo, se os estudantes não manifestam interesse pelas aulas, como transformar as aprendizagens repetitivas-mecânicas dos alunos em aprendizagens significativas?
  • Quais são os objetos e o evento em que você vai concentrar sua atenção para responder à pergunta formulada?
  • Quais são a filosofia e a visão de indivíduo e de sociedade que orientam as necessidades atuais da Educação?
  • Qual é a visão teórica que te orientará e em que te embasará? Isto implica numa decisão relativa ao paradigma ou enfoque dominante pelo qual se abordará a resposta à pergunta. Por exemplo:
    • Teoria da aprendizagem significativa,
    • Teoria de zonas de aprendizagem de Vygotsky,
    • Teorias de pesquisa-ação, estilos cognitivos, estratégias de aprendizagem,
    • etc.
  • Quais são os princípios - ou aspectos chaves da visão teórica - que se utilizarão para responder à pergunta?
  • Quais são os conceitos-chave?
  • Quais são os critérios que se aplicarão para resolver o problema?
  • Quais são os procedimentos metodológicos e técnicas? Neste caso, o método consiste nos procedimentos, técnicas curriculares, pedagógicas e de avaliação que utilizará
  • Quais serão os registros em que se apoiarão as transformações descritas. Dependem do evento escolhido. Por exemplo, observações diretas, textos livres, entrevistas, diários, etc. 
  • Quais as transformações a serem realizadas nos registros?

O Vê de Gowin e o Artigo

Uma vez tendo sido desenvolvido o projeto, é hora de divulgar os resultados em forma de um artigo cientírico.

As considerações acima sobre a relação do Vê de Gowin com a escolha e formulação do título, do resumo e introdução, problema, hipótese, objetivos, fundamentação teórica e metodologia se mantém.

Para o artigo, temos, porém, algumas relações novas:

O Vê de Gowin e o artigo científico
  • Os Dados brutos deveriam ser incluídos no artigo para que os leitores pudessem avaliar por eles mesmos se as transformações feitas estão corretas. No entanto, por questões de espaço, isso é geralmente inviável. Uma alternativa atual seria disponibilizá-los (anonimizados) em um arquivo armazenado em algum servidor na Internet e incluir no artigo um link para esse arquivo. Por exemplo, um periódico científico recomenda explicitamente em suas normas: "A BJET incentiva fortemente os autores de artigos que descrevem pesquisa empírica para que tornem seus dados disponíveis para outras pessoas, por exemplo, através de um repositório institucional ou outro" (RUSHBY, 2014);
  • Os Dados transformados aparecem como resultado das transformações anteriormente descritas, sejam em forma de tabelas, gráficos, etc., e serão objeto das análises descritas;
Segundo Lichtfouse, diferentemente da tese, para um artigo,
Seleciona-se [apenas] um resultado inovador e dois resultados secundários que dão lhe suporte e reforçam sua interpretação como base do artigo. Os demais resultados podem vir a ser publicados em outro artigo se merecerem ou nunca ser publicados de todo” (LICHTFOUSE, 2013, p. 22, Fig. 8).

Há que ter foco: “Resultados em excesso escondem o resultado novo” (LICHTFOUSE, 2013, p. 21).
Lichtfouse - seleção de resultados
  • Os Juízos cognitivos nada mais são do que os resultados das análises efetuadas, sejam elas, análises estatísticas (teste de t de Student, análise fatorial, etc.), análises de conteúdo, análise de conteúdo, análise de registros de representação semiótica, etc. Como já dito, devem responder afirmativamente ou negativamente à pergunta de pesquisa.
  • Finalmente, os Juízos de valor constituem-se em conclusões que transcendem ao mero juízo de valor. Normalmente referem-se a apreciações maiores sobre o trabalho de pesquisa como um todo e geralmente sugerem providências e rumos para outras pesquisas.

Esperamos ter demonstrado que a utilização do Vê Epistemológico de Gowin ajuda enormemente na estruração consistente de um trabalho acadêmico.

A escrita é parte do processo de pesquisa!

Por outro lado, já vimos que Ciência é uma construção social

Desde os tempos do Padre Mersenne que ela é construída pela comunicação entre os cientistas. Por isso, a qualidade e a eficácia dessa comunicação são essenciais. 

Publicar não é uma 'obrigação' acessória após a 'pesquisa': publicar é parte essencial do processo de construção da Ciência! 

Como já dizia o 'filósofo' Chacrinha, 

Chacrinha - "Quem não se comunica, se trumbica"

Ou, como dizem os anglo-saxões há anos: publish or perish (publique ou pereça)!

Na verdade, Lichtfhouse diz que 

Deve-se começar a escrever o mais cedo possível, mesmo que não se veja a potencial novidade nos resultados preliminares: é possível que estes resultados 'ocultos' sejam assunto de um artigo piloto antes de proceder com os demais experimentos” (LICHTFOUSE, 2013, p. 7).

Escrever sobre a pesquisa ajuda a clarificá-la até mesmo para o próprio pesquisador!

Ainda, segundo Lichtfouse,

O artigo deve começar a ser escrito antes de começar o experimento, ainda quando se está preparando a proposta de pesquisa, formulando as hipóteses e projetando o experimento” (LICHTFOUSE, 2013, pp. 7–8).

Durante a realização da pesquisa, a escrita continua, não só na forma do registro dos resultados, mas no de todas as observações feitas, dificuldades encontradas, situações inesperadas, boas e más, etc.. Finalmente, quando a pesquisa está terminada, todas as informações são recolhidas, analisadas e sintetizadas em forma do artigo” (LICHTFOUSE, 2013, p. 8).


Agora, quanto ao seu artigo?

professor ingênuoVocê está escrevendo um artigo só para cumprir o quesito obrigatório?
professor espertoQuer que seu artigo seja lido e citado?

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Citar esta página:
dos SANTOS, Renato P. . In Física Interessante. 8 Sep. 2014. Disponível em: <>. Acesso em: .

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